da antiga...


Integrante da Velha Guarda da Portela, Lincoln, 1915-1987, violonista e parceiro de grandes nomes como Paulo da Portela.


Beto Sem Braço, Sapato, Almir Guineto, Ratinho (Grupo Exporta Samba) e Luiz Carlos da Vila.


Ataulfo Alves numa animada roda de samba.

velha guarda musical camisa verde e branco

O Brasil ecoa nos quatro cantos do mundo os rufares dos tambores que tanto encanta e unem os povos, despertando neles o interesse de aqui visitar, quando não nesta terra morar. Vivemos em um solo abençoado e somos uma nação diferente: alegres, festeiros, bons "malandros" e, acima de tudo, brasileiros. Mas o preconceito no passado, negou reconhecer os valores criados pelos nossos ancestrais, trazidos de além mar que, de tanto sofrer, extraíram forças da alma para vencer as batalhas e serem os semeadores de uma árvore com raízes fortes, adequada e transformada em frutos- genuinamente samba-brasil. Frutos, agora, apreciados por natos ou radicados em solos verde e amarelo. Mas, a história no passado foi muito mais impiedosa e o preconceito não desapareceu; ele diminuiu. Parte dessa história iniciada há muitos tempos passados, é relatada com honra no período da década de cinqüenta, onde o domínio provinha das classes burguesas e o preconceito racial, social e cultural assolava o samba em São Paulo, tido, nesse período, como reduto de vagabundos, negros e bêbados que não se intimidaram e se propuseram a ser os guardiões do samba, abrindo passagens e carregando a bandeira do mesmo.

Nesse período , os cordões eram o esteio de muitas famílias que, unidas, formavam uma grande sociedade. Culturalmente os negros, sempre marginalizados, encabeçavam as manifestações populares e dessa maneira Seu Inocêncio no Camisa Verde, Pé Rachado no Vai-Vai, Carlão do Peruche na Unidos do Peruche, Madrinha Eunice no Lavapés e Alberto Alves da Silva no Nenê foram os baluartes que plantaram a semente do samba em nosso Estado.

No início, muitos foram os problemas para transformar o sonho em realidade: a repressão da polícia, os maus tratos, a falta de verba, a falta de espaço físico e tantos outros... Entretanto, essas dificuldades foram minimizadas porque junto com os baluartes acreditaram, cultivaram e trabalharam com o mesmo empenho e amor ao samba diversos outros notáveis, tão importantes quantos os acima mencionados: Nelson Primo, Dadinho, Paulo Henrique, Tio Mário, Santa Maria, Cidona, Xúxu, Dona Zéfa, Hélio Bagunça, Donata, Fábio Forato, José Tadeu, Neto Galizi, Vagner Ribeiro, Paulo Aguiar, Wilson Alves, Alice Anália, Djanira Santos, Clarisse Ferreiro, Donivia Camargo, Darcy Alves, Maria Cristina, Maria Ap. Béka, Maria Ap. Oliveira, Maria Ap. Honorio, Maria de Lurdes, Maria da Penha, Maria Silva de Sousa, Olga José, Vera Lúcia Joaquim, Vania Regina, Zulmira Cézar... A semente brotara lentamente, fortalecendo-se ano após ano, dando forma àquilo que seria uma das paixões e cartão postal nacional, o carnaval. A velha-guarda é o celeiro dos bambas dentro de uma escola de samba, pois é a união dos artistas do povo que ao longo da trajetória das agremiações trouxeram, trazem e sempre trarão benefícios, não só para as escolas, mas para o samba em geral. Assim, os caminhos de ingresso na velha-guarda do Camisa não é para qualquer um; é preciso ter uma história, uma relação de carinho e cumplicidade com a nossa bandeira. Hoje, o carnaval está na vitrine e tornou-se um símbolo de status e muitos dos membros da nossa velha-guarda estão contentes porque ao longo dos mais de trinta anos, participando ativamente das atividades da escola, desde a construção da quadra, trabalho em barracão, organização dos ensaios, execução de ritmo a empurrar carros alegóricos, percebem que o samba está evoluindo em uma espiral positiva. Os nossos queridos mestres sempre estão caminhando conosco, não importando as dificuldades a serem vencidas. Poucas seriam as palavras para elogiar cada um desses "raízes", mas aos artistas do povo que morrem sem glórias, o reconhecimento do GRESM Camisa Verde e Branco enaltece a importância de cada um dos integrantes da ala mais querida e fundamental dentro de uma escola de samba, e os imortaliza "os raízes trevianos do samba".

Toda entidade carnavalesca deve prestar os respeitos aos "raízes" do samba porque sambistas iguais a esses, independentemente do cargo que ocuparam e sem interesses materiais, são os referenciais de que o samba pode agonizar, mas jamais findará. São exemplos de dignidade e modelos a seguirmos (novas gerações do samba), pela humilde e cumplicidade com a bandeira que servem, cabendo a nós a humildade de aprender através deles a verdadeira história do samba, páginas vividas por cada um desses desde a época em que a "borracha partia pra cima". Muitos deles estão presentes em nosso convívio e dispostos a trocar um dedo de prosa, agraciando-nos com os "causos", os contos, os relatos e os depoimentos vividos desde a fundação, cordão e transformação para a categoria de escola de samba até os dias de hoje. Privilégio e resgate da origem do samba, para que possamos conservar a verdadeira história do samba plantado há anos no Estado de São Paulo. No Camisa há duas velhas-guardas: a de avenida e a musical, sendo a primeira composta pelos nomes acima citados e a musical por Nelson Primo, o sambista mais antigo de Camisa Verde, que exerceu a função de diretor de bateria, colaborador na harmonia, ritmista e organizador da ala de cuícas e introdutor de pratos nas batucadas de SP, Dadinho, Jamelão, Santa Maria, Tio Mario, Paulo Henrique e Tourão.

Não deixemos de prestar as devidas atenções à nossa amada árvore "Samba-Brasil". A conquista maior para os "velhinhos do samba", certamente não é uma placa ou um busto em bronze, mas a garantia de que tantos outros brasileiros, natos ou não, possam saborear do fruto dessa árvore tão amada e cultivada há séculos pelos nossos antepassados. Méritos a todos os celeiros de bambas do nosso Brasil que, desde o passado até os agora, carregam a bandeira do samba dentro dos vossos corações e que, mesmo com o samba sofrendo preconceitos de ordem social ou econômica lutam não só pelo reconhecimento do mesmo, mas pela valorização de uma peculiaridade: a nossa identidade. Identidade essa não encontrada em lugar algum nos quatro cantos do mundo. Viva o Brasil! "Carregas de pó as páginas do livro e esse nunca mais vos ensinarás. Velha-guarda, a enciclopédia viva do samba!"


Velha Guarda Musical Camisa Verde e Branco.

samba de rainha

O grupo Samba de Rainha já chama a atenção antes mesmo de se ouvir um único acorde das canções pelo fato de ser formado por oito mulheres. Não é algo comum encontrar um grupo de Samba formado apenas por mulheres. Não pense você que se trata de algum grupo em que as moças ficam fazendo caras e bocas na frente enquanto algum marmanjo toca os instrumentos. As rainhas são Aidée Cristina (surdo e coro), Carina Iglecias (percussão geral e coro), Erica Japa (rebolo), Gadi Pavezi (pandeiro), Nana Spogis (violão), Núbia Maciel (voz), Sandra Gamon (tamborim, repinique e coro) e Thais Musachi (cavaco e coro). “Vivendo Samba” é o segundo trabalho do grupo que apresenta um Samba de raiz com influências de nomes consagrados como Dalva de Oliveira, Ary Barroso, Clara Nunes e outros contemporâneos como Beth Carvalho e Leci Brandão. O disco traz 15 faixas geralmente curtas. Apenas uma chega aos quatro minutos e metade não chega aos três. As músicas são animadas, como não poderia deixar de ser em um álbum de samba. Há espaço para o humor como em “É Pomba, Mané”, mas no geral as letras tratam de amor e relacionamentos.

“Desdém” é uma das melhores músicas do disco e parece ser uma resposta para aqueles que julgam o grupo antes mesmo de ouvir o trabalho das moças. “Teu riso de deboche é que é um vexame, respeite quem na roda for entrar...”, diz a letra da música. O grupo faz uma releitura de “Retalhos de Cetim”, sucesso de Benito di Paula lançado originalmente em 1973. Esta é a única das músicas que não é inédita. O registro do disco foi feito ao vivo no estúdio, mas graças ao bom trabalho de produção feito pelo norte-americano Roy Cicala e pela brasileira Claudia Jungblut esse fato nem é percebido. Parece que a gravação foi feita separadamente. Mas a energia de uma verdadeira roda de samba é perceptível em cada faixa. Com o segundo álbum as ‘rainhas’ continuam reverenciando o Samba clássico, de raiz, mas apontando para o futuro.


Samba de Rainha fala sobre a imortalidade do samba e responde aos internautas no Estúdio Showlivre.

Nene Brown em Ribeirão Preto


Nene Brown em Ribeirão Preto (SP), junto com o Grupo Sem Limites cantando os Hits, Sábado e Domingo e 4 Tora.

Grupo Nosso Canto


Grupo Nosso Canto no Butiquim do Martinho em Vila Isabel (RJ)

butiquim do samba


Butiquim do Samba em 1998.

com a palavra, a velha guarda do samba...


Depoimentos de alguns Bambas do Samba Carioca.

aluizio machado

Integrante da Ala de Compositores do GRES Império Serrano. Vencedor do programa “A Grande Chance” de Flávio Cavalcanti, em 1974, na TV TUPI. Ex-integrante da Ala de Compositores da Unidos de Vila Isabel (onde atuou na década de 70 por convite do então presidente da Ala, Martinho da Vila). Nove sambas enredos cantados (e um que ainda será) no carnaval pelo GRES Império Serrano, inclusive os sambas de 2002 e 2003. Quatro Estandartes de Ouro de melhor samba enredo (1982, 1983, 1986 e 1993). Sendo que o samba de 1982 em parceria com Beto Sem Braço trata-se do estrondoso sucesso “Bumbum Praticumbum Progurundum”. Shows nos anos 60: Teatro Opinião (ao lado de Nara Leão e João do Vale), nas boates Sucata, Degrau, Colt 45 e Cassino Royal. “Apesar dos Pesares”, primeiro LP em 1975. Composições suas foram gravadas por grandes nomes da MPB: Zeca Pagodinho, Alcione, Nei Lopes, são alguns. Integrante atual da Velha Guarda Show do Império Serrano. Com esta fez e faz diversas apresentações por todo o país.

Também com a Velha Guarda do Império fez recente participação no último cd e nos shows do cantor e compositor Dudu Nobre. Em 2001 participa do Projeto “Meninos do Rio” apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil ao lado de outros grandes nomes do samba como: Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Jurandir da Mangueira, Luiz Grande, Monarco, Mestre Campolino, Baianinho, Nelson Sargento, Dauro do Salgueiro, Casquinha, Niltinho Tristeza. Do projeto mencionado acima resulta um cd gravado pela Carioca Discos intitulado: “Meninos do Rio”. São parceiros em composições de Aluízio Machado : Arlindo Cruz, Nei Lopes, Beto Sem Braço, Walter Rosa, Serginho Miriti entre muitos outros.


Reportagem sobre Aluizio Machado.

beto sem braço



O apelido Beto Sem Braço se deveu ao fato de haver perdido o braço direito em decorrência de uma queda de cavalo. Laudemir Casemiro nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Foi feirante e desde cedo começou a compor, sendo seu primeiro sucesso nacional a composição "Ai que vontade", interpretada por Oswaldo Nunes, no início da década de 70. Pertenceu à ala de compositores da Vila Isabel até 1981, quando o compositor Aluísio Machado o levou para o Império Serrano. Já no carnaval de 1982 a dupla venceria o concurso de samba de enredo com a obra-prima "Bum Bum Paticumbum Prugurundum", com o qual o Império se sagraria campeão do carnaval. No Império ganharia sambas nos anos subseqüentes e paralelamente seus sucessos seriam gravados por grandes intérpretes, como Beth Carvalho, Almir Guineto, Deni de Lima e Zeca Pagodinho. Morreu de tuberculose em 15 de abril de 1993, no Rio de Janeiro.


Arlindo Cruz no Programa do JÔ fala sobre Beto Sem Braço.

xande de pilares


Xande de Pilares canta "Tá Escrito" e "Saparada" acompanhado pelo grupo Senzala no evento mensal Poetas do Samba. Realizado pelos compositores Gilson Bernini e Zé Roberto.


Pagode da Semente em Quintino (RJ).


Mumuzinho e Xande no Barril 8000 (RJ).

ataulfo alves

Ataulfo Alves inaugurou um novo estilo de fazer samba. Com seu jeito manso e sua tranqüilidade mineira, ele emprestou cores diferentes à música que brotava dos morros e dos subúrbios cariocas na década de 30. A história do compositor Ataulfo é mais que o relato simples de um artista de grande talento e capacidade criativa. É também a trajetória de um filósofo popular, verdadeiro mestre em criar provérbios que atravessam gerações. O mito da Amélia, idealização da mulher que aceita tudo por amor, popularizou-se a partir de uma das músicas mais famosas de Ataulfo, composta na década de 1940, em parceria com Mário Lago. Ataulfo Alves de Sousa nasceu em Miraí, MG, em 2 de maio de 1909. Com oito anos fazia versos para responder aos improvisos do pai, que era violeiro e repentista. Aos 10 anos perde o pai, e sua mãe, Maria Rita de Jesus, com um porção de filhos, sai da fazenda e vai morar no centro da cidade de Miraí, que ficava próximo.Passa Ataulfo a freqüentar o grupo escolar e a desempenhar os serviços que apareciam. Uma existência pobre, mas tranqüila e feliz, que registraria no samba Meus tempos de criança. (Foto: Mário Lago, parceiro de muitas músicas com Ataulfo). Aos 18 anos, aceitou o convite do Dr. Afrânio Moreira Resende, médico de Miraí, para acompanhá-lo ao Rio de Janeiro, onde fixaria residência. Durante o dia, trabalhava no consultório, entregando recados e receitas, e, à noite, fazia limpeza e outros serviços domésticos na casa do médico. Insatisfeito com a situação, conseguiu uma vaga de lavador de vidros na Farmácia e Drogaria do Povo. Rapidamente aprendeu a lidar com as drogas e tornou-se prático de farmácia. Depois do trabalho voltava para casa no bairro de Rio Comprido, onde costumava freqüentar rodas de samba. Já sabia tocar violão, cavaquinho e bandolim, e organizou um conjunto que animava as festas do bairro.

Em 1928, com apenas 19 anos, casou-se com Judite. Em 1929 trabalhou por algum tempo numa outra farmácia, mas logo voltou ao emprego anterior. Nessa época, em que já começara a compor, tornou-se diretor de harmonia de Fale Quem Quiser, bloco organizado pelo pessoal do bairro. Ainda em 1929, nasceu Adélia, sua primeira filha. Em 1933, Bide (Alcebíades Barcelos), que viria a fazer sucesso com o samba Agora é cinza (com Marçal), ouviu algumas composições suas no Rio Comprido, e resolveu apresentá-lo a Mr Evans, diretor americano da Victor. Foi então que Almirante gravou o samba Sexta-feira, sua primeira composição a ser lançada em disco. Dias depois, Carmen Miranda, que ele havia conhecido antes de ser cantora, gravou Tempo perdido, garantindo sua entrada no mundo artístico. (Foto: roda de samba). Em 1935, através de Almirante e Bide, conseguiu seu primeiro sucesso com Saudade do meu barracão, gravado por Floriano Belham. Ainda nesse ano, o Bando da Lua gravou a marcha Menina que pinta o sete, feita em parceria com Roberto Martins. Seu nome cresceu muito quando apareceram as gravações do samba Saudade dela, em 1936, por Sílvio Caldas e da valsa A você (com Aldo Cabral) e do samba Quanta tristeza (com André Filho), em 1937, por Carlos Galhardo, que se tornaria um dos seus grandes divulgadores. Passou a compor com Bide, Claudionor Cruz, João Bastos Filho e Wilson Batista, com quem venceu os Carnavais de 1940 e 1941, com Ò seu Oscar e O bonde de São Januário.

Em 1938, Orlando Silva, outro grande intérprete de suas músicas, gravou Errei, erramos. Em 1941, fez sua primeira experiência como intérprete, gravando seus sambas Leva meu samba (Mensageiro) e Alegria na casa de pobre (com Abel Neto). Em 1942 a situação financeira difícil e a hesitação dos cantores em gravar sua última composição fizeram com que ele próprio lançasse, para o Carnaval do ano, Ai, que saudades da Amélia; gravado com acompanhamento do grupo Academia do Samba e abertura de Jacó do Bandolim, (Na foto: Ataulfo com suas pastoras e Jamelão) o samba, feito a partir de três quadras apresentadas por Mário Lago para serem musicadas, resultou em grande sucesso popular. Juntos fizeram ainda Atire a primeira pedra, para o Carnaval de 1944, e em 1945 lançaram Capacho e Pra que mais felicidade . Resolvido a continuar interpretando suas músicas, juntou-se a um grupo de cantoras, organizando um conjunto que, por sugestão de Pedro Caetano, foi chamado de Ataulfo Alves e suas Pastoras. Inicialmente formado por Olga, Marilu e Alda, lançaram sucessos como Inimigo do samba (com Jorge de Castro), em 1943; Todo mundo enlouqueceu (com Jorge de Castro), Boêmio sofre mais (com Floriano Belham) e Vá baixar noutro terreiro (com Raul Marques), em 1945; e Infidelidade (com Américo Seixas), em 1947. Representativas da década de 1950, quando faziam sucesso músicas de fossa e de amores infelizes, são suas composições Fim de comédia e Errei, sim, gravadas por Dalva de Oliveira. Em 1954 participou do show "O Samba nasce no coração", realizado na boate Casablanca, quando lançou o samba Pois é.... O pintor Pancetti gostou muito da música e, inspirado nela, fez um quadro com o mesmo nome, que ofereceu ao compositor. Compôs então Lagoa serena (com J. Batista), dedicando-a a Pancetti, que, novamente, o homenageou com a tela Lagoa serena. Pois é... foi gravado somente em 1955, pela Sinter, pois o compositor havia sido despedido da Victor. Na nova gravadora lançou em 1956 o "LP Ataulfo Alves e suas pastoras" (Foto:A elegância nos trajes e nos gestos foi uma das características que marcaram a figura de Ataulfo Alves).

Em 1957 fez Vai, mas vai mesmo, samba muito cantado no Carnaval de 1958. Ainda em 1957 compôs o lírico Meus tempos de criança, que, relembrando sua infância e as personagens de sua cidade natal, é um dos mais característicos de seu estilo nostálgico. Convidado por Humberto Teixeira, em 1961 participou de uma caravana de divulgação da música popular brasileira na Europa, para onde levou Mulata assanhada e Na cadência do samba (com Paulo Gesta), que acabara de lançar. Retornou no mesmo ano e fundou a ATA (Ataulfo Alves Edições), tornando-se editor de suas músicas. Por essa época, desligou-se de suas pastoras - na ocasião Nadir, Antonina, Geralda e Geraldina -, passando a se apresentar sozinho, esporadicamente. Depois de realizar em 1964 uma temporada no Top Club, do Rio de Janeiro, como sentisse piorar a úlcera no duodeno, em 1965 decidiu passar o seu título de General do Samba para seu filho, Ataulfo Alves Júnior. Em 1966 fez nova viagem ao exterior, como representante do Brasil no I Festival de Arte Negra, em Dacar, Senegal. Em 1967 voltou a aparecer em paradas de sucesso, com inúmeras gravações do samba Laranja madura. Nesse mesmo ano, Roberto Carlos gravou Ai, que saudades da Amélia. Compôs ainda, com Carlos Imperial, os sambas Você passa, eu acho graça, Você não é como as flores e sua última música, Mandinga, concluída pelo parceiro e gravada na Odeon por Clara Nunes. Em decorrência do agravamento da úlcera, morreu após uma intervenção cirúrgica (Foto acima: Com Roberto Carlos).

fonte: MPB Cifra Antiga

amo muito tudo isso...


Roda de Samba com uma velha guarda de bambas.


Ensaio do Bloco Suburbanistas.


Luiz Carlos da Vila, Dorina e Dona Jane.

sururu na roda

Segundo o velho filólogo Silveira Bueno, o termo ?sururu?, na acepção de briga, conflito, vem do fato de os sururus, caranguejos pretos dos mangues, viverem amontoados e se debaterem em constantes brigas em disputa de espaço. Mas a ?roda? de que vamos tratar agora, e em que o nosso Sururu corajosa e prazerosamente se debate é, ao invés de um "mangue", aquele ambiente onde um grupo se reúne informalmente para tocar, cantar e viver o samba e, é claro, o choro. Sim, o choro, estilo que bem mais que aquela coisa eruditóide e meio devagar que alguns pretendem seja, é a face instrumental mais exposta e tradicional do samba ? circunstância que, aliás, só enobrece e fortalece tanto um, o gênero, quanto outro, o estilo. Nascido para tocar e cantar samba e choro, ou seja, a música popular brasileira na sua forma mais carioca e universal, o grupo Sururu na Roda foi criado em 2000. E surgiu a partir do talento, da inventiva e da experiência de uma musicista excepcional, Nilze Carvalho. Por volta de 1975, com apenas 6 anos de idade, Nilze, nascida Albenise de Carvalho Ricardo, era descoberta como executante de cavaquinho, no estilo choro, e logo se apresentava em programas de rádio e TV, inclusive na prestigiosa Rede Globo. Aos 11, já como bandolinista, iniciava carreira discográfica, fazendo, três anos depois, sua primeira turnê internacional, exibindo-se em teatros na Itália, Espanha, França e Suíça. Mais tarde, apresentou-se em Los Angeles, Nova York e Las Vegas, além de cumprir temporadas no Japão, de 1991 a 1997. Nos anos seguintes tocou profissionalmente na China, Austrália e Argentina. No Brasil gravou a série Choro de Menina, em quatro volumes, e o CD Chorinhos de Ouro, Vol. 4. Nos anos 90, Nilze resolvia transformar sua musicalidade inata, desenvolvida em casa, em algo mais sólido e formal. E, aí, no curso de licenciatura em música da UNI-RIO, que agora conclui, conheceu Camila Costa (22 anos, voz e violão) com quem, mais o irmão Silvio Carvalho (37, voz, percussão e cavaquinho) e Fabiano Salek (28, voz e percussão) formou o grupo Sururu na Roda. Nilze e Camila, como dissemos, têm formação musical acadêmica já praticamente completa. Fabiano ? filho da flautista, cantora e compositora Eliane Salek e do saudoso maestro Marcos Leite, inovador do canto coral na música popular e fundador do Garganta Profunda, grupo do qual nosso jovem músico também faz parte ? também é formado em licenciatura em música pela UNI-RIO. E Silvio, filho de músico e acompanhante da irmã desde o início de sua carreira internacional, é igualmente músico refinado, embora sem instrução formal completa.

Com esse material esplêndido na mão, foi relativamente fácil ao produtor e arranjador Ruy Quaresma fazer um disco diferente e primoroso. A começar pelo repertório. Alinhavando sambas, maxixes, choros etc. cujas datações vão de 1929 (Dorinha, Meu Amor e Gavião Calçudo) a 1983 (Samba do Grande Amor); aproximando autores aparentemente distantes como Noel Rosa de Oliveira, o maior compositor do morro do Salgueiro, e Chico Buarque; juntando, no mesmo baú de preciosidades, sambas injustamente esnobados como os polêmicos O Conde e Esperanças Perdidas ? este, alvo de uma disputa autoral cabeluda, nos anos 70; trazendo a registro, além de um clássico do samba instrumental, Na Glória, até mesmo a valsa espanholada Santa Morena, ícone do repertório bandolinístico; compondo, enfim, um mosaico da melhor música popular brasileira, Ruy e o Sururu abriram a roda e, literalmente, ?deitaram e rolaram?. Para tanto, contaram com a competência, o talento e a energia dos excelentes percussionistas Marcelinho Moreira, Ovídio Brito e Eber; dos ?sopristas? Humberto Araújo, Eliane Salek e Roberto Marques (trombone na faixa 5); dos ?cordistas? Alceu Maia (banjo, faixas 2 e 4), Carlinhos Sete Cordas, Luis Filipe de Lima e Nicolas Krassik (violino, faixa 12); e da canja tão fundamental quanto despojada de ?São Chico Buarque? - além do próprio Quaresma, ao violão.

O Sururu é isso. Música para ouvir, dançar e cantar junto. E quem já viu o grupo ao vivo, nas noitadas da Lapa ou em ambientes mais contidos, sabe do que estou falando. Falo de Nilze Carvalho, deusa congo-iorubana transbordando música e sensibilidade, liderando o grupo só no olhar, com pouquíssimas palavras e sem nunca altear a voz; e se multiplicando ao bandolim, ao cavaquinho e ao violão, em afinações totalmente diferentes, as notas fluindo de seus dedos e a voz brotando do coração. Falo de Camila Costa, voz limpinha, cristalina, dando, com seu violão, o tom de leveza e frescor do grupo. Falo de Fabiano Salek, esbanjando energia, estraçalhando na percussão e nos vocais; e usando a voz até como cuíca. Falo do carisma de Silvio Carvalho que, no palco, empresta um brilho todo especial à performance do Sururu; e que, na maior tranqüilidade, segura a harmonia do cavaco quando Nilze sola ao bandolim. Em comum, os quatro têm uma saudável particularidade: qualquer dia, hora e lugar em que se chegue, vai-se encontrá-los cantando, vocalizando e tocando como se tivessem começando naquele momento. Não se importam que as pessoas dancem: muito pelo contrário! Como dia desses, em que Nilze sinalizando com o olhar, fez com que o grupo repetisse a segunda parte do Brasileirinho, pois o salão estava se enchendo de dançarinos. Pois o Sururu na Roda é isso! Mas é música para pensar, também. Principalmente no enorme mangue que separa a roda que nós queremos, a da boa música, desse tremendo ?sururu? (no mau sentido) que, em nome da tal globalização, andam nos tentando empurrar goela a dentro.

fonte: Nei Lopes

corpo do sambista luiz carlos da vila é enterrado ao som de suas músicas



O corpo do sambista Luiz Carlos da Vila foi enterrado no início da tarde desta terça-feira, no Cemitério de Inhaúma, no Rio, ao som de suas principais músicas. Cerca de 300 pessoas acompanharam a cerimônia e cantaram grandes sucessos do compositor, como "O show tem que continuar" e "Kizomba, a festa da raça". Luiz Carlos morreu na segunda de manhã, de complicações decorrentes de um câncer, no Hospital do Andaraí.

Vários amigos e sambistas estiveram no velório de Luiz Carlos, realizado na quadra da escola de samba de Vila Isabel. Entre eles, seus parceiros Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Beth Carvalho. A despedida do músico mereceu descontração, com direito a mesa de bar e cerveja para relembrar o grande sambista.


faixa em homenagem ao compositor.

Luiz Carlos da Vila estava internado há 40 dias. O sambista, de 59 anos, lutava contra um câncer no intestino e já havia sido operado em 2002. Seu famoso samba "Kizomba -A festa da raça" deu o primeiro título para a Vila Isabel no desfile de escolas de samba cariocas. Enttre suas músicas conhecidas estão "Além da razão", "Por um dia de graça", "Doce refúgio" e "O show tem que continuar".

Luiz Carlos da Vila, conhecido como o Poeta do Samba, era casado e tinha uma filha. Ele nasceu no bairro de Ramos, mas morou grande parte da vida em Vila da Penha, de onde tirou o sobrenome artístico. Ele também era assíduo freqüentador da escola de samba de Vila Isabel. O cantor e compositor chegou a compor um samba para concorrer para o Carnaval 2009, junto com os parceiros Ivanísia, Acyr Marques e Alessandro Silva. A composição chegou à final, na última sexta-feira, mas não sagrou-se campeã.


Descontração no velório para a despedida do amigo: Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.

Ele estudou acordeom e violão, e na década de 70 ia aos ensaios do bloco Cacique de Ramos, onde tocava e apresentava seus sambas. Sua admiração por Candeia rendeu em 1998 um disco, "A luz do vencedor", pela CPC-Umes, dedicado exclusivamente à obra do compositor.

fonte: João Pimentel

morre luiz carlos da vila...



Morreu há pouco, no Hospital do Andaraí, o grande sambista Luiz Carlos da Vila, de 59 anos. Ele estava internado desde o início de setembro, e nos últimos dias sua situação piorou, e os médicos proibiram as visitas. Luiz Carlos deve ser enterrado amanhã, no Cemitério de Inhaúma. Como cantor e compositor, deixa grandes obras, como "Kizomba", "Doce refúgio", Cabô meu pai" e "O show tem que continuar".

Luiz Carlos nasceu em 21/07/1949 na Vila da Penha, e daí vem seu apelido. A Vila Isabel só surgiu em sua vida anos depois, em 1977, quando entrou na ala de compositores da escola. No final da década de 70 e início dos anos 80, foi um dos mais ativos participantes das rodas do Cacique de Ramos, que formataram o atual estilo de samba.



Sua primeira música gravada foi "Graças ao mundo", pelo Conjunto Nosso Samba, nos anos 70. Em 1979, ganhou seu primeiro samba-enredo na Unidos de Vila Isabel, "Os anos dourados de Carlos Magno", e a escola foi a campeã do segundo grupo. No ano seguinte, Beth Carvalho gravou duas músicas suas, "Herança" e "O sonho não acabou". Em 1983, gravou seu primeiro disco, com produção de Martinho da Vila.

Em 1988, sua música "Além da razão" ganhou o Prêmio Sharp de Melhor Música. No mesmo ano, foi o autor de "Kizomba - A festa da raça", com o qual a Vila ganhou seu primeiro título entre as grandes do carnaval carioca.



Entre seus parceiros estão Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Moacyr Luz, Martinho da Vila e Wilson das Neves. Suas composições já foram gravadas por vários cantores da música popular brasileira, como Jair Rodrigues, Simone, Fundo de Quintal, Nara Leão e Jorge Aragão. Nas Diretas Já, sua música "Um dia de graças" tornou-se um hino.

Recentemente, fez vários shows com o grupo Os Suburbanistas, formado por ele, Mauro Diniz e Dorina. Na última sexta-feira, um samba seu concorria nas eliminatórias da Unidos de Vila Isabel para o carnaval 2009, mas foi derrotado.



A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.

Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?


Nesse vídeo vemos a rapaziada do Morro do Alagoano em Vitória-ES num descontraído samba de roda com o grande Luiz Carlos da Vila no dia 30/03/2007, antes da sua apresentação na cidade.

> o ouro e a madeira



O Ouro e a Madeira
(Ederaldo Gentil)

Não queria ser o mar
me bastava a fonte
Muito menos ser a rosa
simplesmente o espinho
Não queria ser o caminho
porém o atalho
Muito menos ser a chuva
apenas o orvalho

Não queria ser o dia
só a alvorada
Muito menos ser o campo
me bastava o grão
Não queria ser a vida
porém o momento
Muito menos ser o concerto
apenas a canção

O ouro afunda no mar
Madeira fica por cima
Ostra nasce do lodo
Gerando pérolas finas

> download aqui
se gostarem, sugiro que adquira o álbum:
A Musica Brasileira deste Seculo
por seus Autores e Interpretes - 2001
Sambas da Bahia com Batatinha,
Riachão e Ederaldo Gentil

da antiga...


Bira, Clara Nunes, Dominguinhos do Estácio, Dida e Conjunto Nosso Samba.


Roberto Ribeiro puxando o samba de 1980 da Império durante o desfile.


Paulinho da Viola e Araci Cortes no espetáculo “Rosa de Ouro”.

portelinha



Entrar na Portelinha é também desvendar os segredos da alma portelense. Seu portão azul se abre para a Estrada do Portela, diante de uma típica paisagem do subúrbio contemporâneo. Carros, ônibus e vans travam suas barulhentas batalhas diárias. O "vai-e-vem" agitado convive com a ainda resistente tradição do bate-papo entre vizinhos. Mães apressadas deixam e pegam seus filhos no colégio. Entretanto, é o olhar histórico que nos revela a particularidade do local. Ali nasceu a Portela. Nossa imaginação reconstrói uma arqueologia fantástica, fazendo ressurgir em nossa mente a velha jaqueira, a chácara do Sr. Napoleão, o bar do Nozinho. Paulo, que antes caminhava elegantemente, agora está presente em forma de busto, impondo-se no centro da praça que leva seu nome.

Segundo Candeia, as primeiras sedes da Portela foram as casas de Paulo da Portela, no Barra-Preta, e o quarto onde morava Antônio Rufino. Nos primórdios das escolas de samba, uma sede significava, basicamente, um local para guardar os instrumentos. A terceira sede da escola foi o famoso "Bar do Nozinho", quando as reuniões e a centralização administrativa já se tornavam obrigatórias para a organização das escolas de samba, cada vez mais complexas e especializadas.

O crescente progresso das escolas de samba trouxe também a necessidade de um local fixo que fosse utilizado para os ensaios. Construída no fim da década de 50, a Portelinha foi a primeira sede própria da Portela. Muitos contribuíram para a realização do projeto. Do livro de ouro constam nomes como o do Ministro Edgard Romero. Natal contribuiu com grande parte dos recursos. Lino Manoel dos Reis doou para a escola o dinheiro de uma indenização pela perda dos dedos de uma mão. A Portelinha foi uma grande conquista, mas a popularidade das escolas de samba crescia de tal forma que em pouco tempo a quadra tinha se tornado pequena, obrigando a Portela a ensaiar primeiro no Clube Imperial, em Madureira, e depois construir o Portelão, na época chamado "Academia do Samba Natalino José do Nascimento".



Abandonada, a Portelinha representava apenas uma etapa do crescimento da escola. Constituía-se, também, numa presença concreta da Portela em seu berço, onde as demais lembranças pereciam com os anos. A pequena quadra ficou esquecida até a escola ceder a administração do espaço para a Velha Guarda, que, sob a liderança do Sr. Armando Santos, transformou-a num centro de sociabilidade para nossos veteranos sambistas. As placas na parede recordam as glórias passadas da Portela. O azul e o branco se alternam harmoniosamente, destacando-se as frases que exaltam a Portela e a importância da Velha Guarda. A "mãe do Portelão", como diz uma frase do compositor Gil Coelho exposta na parede, é um local acolhedor e receptivo. O Palco Carlos Teixeira Martins fica ao lado da entrada. No fundo, o bar da velha guarda fica próximo à escada que permite acesso à "Rua Antônio Rufino", no segundo andar da construção, onde fica também a cozinha.

Sobre o já citado palco, os "velhas guardas" preservam valiosas lembranças do passado glorioso da Portela. Instrumentos antigos de bateria, alguns bastante diferentes dos atuais, como os tamborins quadrados, estão expostos ao lado dos chapéus de saudosos ritmistas. Quadros históricos, flâmulas e os troféus oferecidos à velha guarda ocupam a quase lotada estante de madeira. É a presença dos pioneiros e dos mais antigos nas histórias, nas atas e nas relíquias. A palavra "saudade" só existe na língua portuguesa. Entrar na Portelinha, para quem viveu a Portela das décadas de 50 e 60, é sentir o significado deste termo. Para quem não conheceu a Portela desta época, o sentimento é de algo que nosso idioma simplesmente ignora. Saudade de algo que jamais foi vivido.

especial paulo da portela

Paulo custou a se recuperar de seu complicado afastamento da Portela. De volta aos principais redutos de samba, percebeu que seu sucesso continuaria independentemente de estar ou não ligado à escola. A imprensa continuou dando um imenso destaque a Paulo, que sem dúvida nenhuma foi uma das personalidades mais conhecidas do Rio de Janeiro nas décadas de 30 e 40. Ainda em 1941, Paulo ingressou na Lira do Amor, cuja sede ficava na Rua Pacheco da Rocha, em Bento Ribeiro. Paulo assumia o difícil desafio de transformar a pequena escola de Bento Ribeiro, bairro vizinho a Oswaldo Cruz, numa grande escola de samba. Apostava em seu carisma, na sua capacidade, e nos amigos que construíra ao longo da vida. Alguns portelenses, como a pastora Eunice, atual integrante do conjunto da velha guarda show da Portela, acompanharam Paulo em sua difícil empreitada. Para os componentes da Lira do Amor, o reforço de Paulo representava a oportunidade de a escola disputar de igual para igual com as principais agremiações do carnaval carioca. Entretanto, até os mais otimistas sabiam que mesmo Paulo da Portela teria muito trabalho para alcançar esse objetivo. Logo no primeiro carnaval após a chegada de Paulo, em 1942, a pequena Lira não desfilou. Paulo não resistiu, e foi assistir ao desfile de sua escola. Diante da Portela, Paulo bebeu mais do que era de costume. Estava aos prantos, como se fosse uma criança, alguns amigos queriam levá-lo para casa. Paulo não deixava, queria permanecer ali, estático, chorando, lembrando como tudo começou.

Nos anos de 1943, 44 e 45, a Guerra que era travada na Europa começou a apresentar seus reflexos no carnaval carioca. Muitos não viam motivos para folia diante do momento por que o mundo estava passando. Das manifestações carnavalescas, apenas as escolas de samba continuaram em atividade nesses três anos. Mesmo assim, poucas escolas se apresentaram nos desfiles, ocorridos no Estádio do Clube de Regatas Vasco da Gama. A Lira do Amor, assim como muitas escolas nesse período, teve suas subvenções retidas pela prefeitura, o que impediu que a escola desfilasse. Finalmente, em 1946, Paulo, na condição de presidente da escola, pôde desfilar pela Lira do Amor. Desde que Paulo se afastara, a Portela tinha vencido em todos os anos. Já naquela época se transformava na maior campeã do carnaval carioca. Com Paulo, a Lira do Amor obteve a sexta colocação, seu melhor resultado em todos os tempos. A campeã, mais uma vez, foi a Portela. Essas colocações voltariam a se repetir em 1947, último ano dos famosos "sete anos de glória" da Portela. Em 15 de novembro de 1946, em um desfile organizado pela UGES, no Campo de São Cristovão, a Lira do Amor fez uma emocionante homenagem ao senador Luiz Carlos Prestes, do Partido Comunista Brasileiro. O samba foi "Cavaleiro da Esperança", que, apesar de ter sido assinado por José Brito, teve sua autoria creditada, anos mais tarde, a Paulo da Portela.

adoniran barbosa

João Rubinato, que adotou o pseudônimo de Adoniran Barbosa em 1935, em homenagem aos amigos Adoniran Alves e Luís Barbosa, nasceu em Valinhos, estado de São Paulo, no dia 6 de agosto de 1910. Foi o sétimo filho de um casal de imigrantes italianos, vindos de Veneza. Ainda menino, mudou-se com a família para Jundiaí, Estado de São Paulo, onde estudou, um tanto quanto forçado, até o terceiro ano primário. Foi ainda no tempo de escola que Adoniran começou a trabalhar, ajudando o pai no carregamento de vagões da Estrada de Ferro São Paulo Railway, atual Estrada de Ferro Santos Jundiaí. Em Jundiaí, trabalhou também como entregador de marmitas e como varredor numa fábrica de tecidos. Em 1924, por causa da Revolução, a família mudou-se para Santo André, na Grande São Paulo, onde, durante anos, Adoniran continuou sendo o faz-de-tudo: foi tecelão, pintor, encanador, serralheiro e garçom, na casa do então Ministro da Guerra, Pandiá Calógeras. Depois, fez o curso de metalúrgico ajustador, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, mas não se deu bem com a nova profissão: o esmerilhamento do ferro prejudicava-lhe os pulmões. Então, Adoniran procurou outros empregos, entre eles o de mascate, vendendo meias. Como andava muito, Adoniran ia cantando, para encurtar as distâncias. Foi assim que se acostumou a compor andando, mas, para ele, os sambas que compunha eram apenas passatempo e não tinham qual idade nenhuma. Além de compor e cantar, Adoniran vivia batucando na caixa de fósforos. São dessa época seus sambas "Minha vida se consome", feito em parceria com Pedrinho Romano e Viriato dos Santos, e "Socorro", em parceria com Pedrinho Romano. Adoniran ainda trabalhou em loja de ferragens, em agência de automóveis e em loja de tecidos, como entregador de mercadorias. Nesse emprego, Adoniran passava obrigatoriamente pela Rádio Cruzeiro do Sul. Ali ficou conhecendo alguns artistas. Todo sábado Adoniran participava do programa de calouros dessa Rádio e, depois de muito tentar, finalmente foi aprovado no programa de Jorge Amaral, em 1933, cantando 'Filosofia', de Noel Rosa. Sua voz pequena e rouca não era muito bem aceita numa época em que se destacavam Mário Reis e Francisco Alves. Mesmo assim, Adoniran passou a cantar num programa semanal de 15 minutos, acompanhado por conjunto regional. Cantava sambas de outros compositores mas, sendo uma espécie de 'disc jockey', sempre que possível deixava escapar um sambinha seu. Mesmo assim, continuava fazendo de tudo um pouco.

Em 1935, Adoniran ganhou o concurso carnavalesco da prefeitura de São Paulo, com a marchinha "Dona Boa", composta em parceria com Jota Aimberê. O dinheiro do prêmio, que era para comprar um paletó, foi gasto na comemoração com os amigos. "Dona Boa" foi a primeira composição de Adoniran a ser gravada, na Columbia, por Raul Torres. Nesse ano, compôs ainda, com Totó, o samba "É cedo"; com Pedrinho Romano, o samba "Teu orgulho acabou" e com J. Moura Vasconcelos, a marcha "Teu sorriso". Adoniran trabalhou na Rádio Cruzeiro do Sul como cantor e animador de programas de discos, de 1935 a 1940, enquanto compunha. Em 1936, compôs "Agora podes chorar"; "Prá esquecer" e "Se meu balão não se queimar" com Nicolini; "Um amor que já passou", com Frazão; "Chega", com José Marcílio; e "Malandro triste", com Mario Silva. De 1937, são as composições "Adeus, escola...", em parceria com Ari Machado e Nilo Silva, "A Canoa Virou" e "Você é a melhor do mundo", com Raimundo Chaves e "Não me deu satisfações" e "Você tem um jeitinho", com Nicolini. Em 1938, aparece a composição "Mamão", feita em parceria com Paulo Noronha e Raimundo Chaves. Em 1941, levado por Otávio Gabus Mendes, Adoniran foi para a Rádio Record, onde fez radioteatro numa série chamada'Serões Domingueiros'. Foi aí que conheceu Osvaldo Molles, que fazia, na mesma rádio, o programa 'Casa da Sogra' e que acabou criando para Adoniran alguns personagens que ficaram famosos na época: o malandro Zé Cunversa, o judeu de prestações Moisés Rabinovic, o galã do cinema francês Jean Rubinet - inspirado no nome de batismo de Adoniran, João Rubinato, mais o motorista italiano Perna Fina, o professor de inglês Mr. Morris, o moleque Barbosinha Mal-Educado da Silva e Charutinho, que era o mais identificado com a figura de Adoniran Barbosa.

A linguagem desses personagens populares acabou influenciando as composições de Adoniran. Conheceu, então, o conjunto Demônios da Garoa e começaram a trabalhar juntos: formaram uma bandinha para animar as torcidas, nos jogos de futebol promovidos pelos artistas de rádio do interior paulista. Em 1945, Adoniran compôs "Grande Bahia", em parceria com Avaré, e participou do filme nacional "Pif-paf", dirigido por Ademar Gonzaga. Em 1946 participou, também sob a direção de Ademar Gonzaga, do filme "Caídos do céu", e compôs, com Armando Rosas, a marcha "Salve, oh! Gilda!" e com Ivo de Freitas, o cateretê "Tô com a cara torta". Bem-sucedido, Adoniran compôs, em 1947, o samba dor-de-cotovelo "Asa Negra", gravado por Hélio Sindô. Em 1949, com Césio Negreiros, compôs "Marcha do Camelô". A partir de 1950 os Demônios da Garoa tornaram-se os mais constantes intérpretes de Adoniran Barbosa e seu samba "Malvina", interpretado por eles, ganhou o concurso carnavalesco de São Paulo em 1951. Ainda em 1951, Adoniran compôs, com Orlando de Barros, o samba-canção "No silêncio da noite"; com Hervé Cordovil, a marcha-rancho "Pode ir em paz"; e com Rômulo Pais e Delé, o baião "Tá moiado". Em 1952, Adoniran participou do filme "O Cangaceiro", dirigido por Lima Barreto e rodado em Vargem Grande, que acabou recebendo prêmio em Cannes. No mesmo ano compôs, com Osvaldo França e Antonio Lopes, a marcha "Água de Pote"; com Henrique de Almeida e Rômulo Pais, a batucada "A louca chegou"; com Manezinho Araújo, o baião "Tiritica"; e com Osvaldo França, os sambas "O que foi que eu fiz?" e "Joga a chave". Em 1953, em parceria com Osvaldo Molles e João B. dos Santos, Adoniran compôs o samba "Conselho de mulher" e, em parceria com Blota Júnior, compôs "Gol do Amor" . Em 1954, compôs "Abriu a Janela", junto com Frederico Rossini.

Em maio de 1955, os Demônios da Garoa gravaram, com grande sucesso, o samba de Adoniran "Saudosa maloca", que havia sido composto em 1951 e gravado pelo próprio Adoniran, sem, no entanto, ter alcançado alguma repercussão. Há pouco tempo, "Saudosa Maloca" teve, também, uma gravação na voz de João Bosco. Inspirado em "Saudosa Maloca", Osvaldo Molles criou, na Rádio Record, o programa "História das Malocas", onde Adoniran figurava como Charutinho. Sucesso absoluto, "História das Malocas" ficou no ar durante dez anos, de 1955 a 1965, chegando até a ser levado para a televisão. Ainda em 1955, Adoniran compôs "As mariposas" e, em parceria com Rômulo Pais e Jota Sandoval, compôs "Camisolão"; com Jota Nunes e Antonio Rago, "Chorei, chorei!"; com Chuvisco e Jota Nunes, "Deixa de beber"; e com Antonio Rago, "Dormiu no chão". No mesmo ano, foi gravado, pelos Demônios da Garoa, seu samba feito em parceria com Alocin, em 1951, gravado pelo próprio Adoniran, sem sucesso, naquele ano, e regravado há pouco tempo por Rita Lee, o conhecidíssimo "Samba do Arnesto". Em 1956 Adoniran nos presenteia com as composições "Apaga o fogo Mané" e "Um samba no Bexiga" e ainda algumas parcerias, como "Arranjei outro lugá", "Por onde andará Maria?" e "Vem, morena", com Antonio Rago; "Decididamente", com Benedito Lobo e Marcolino Leite; "Garrafa cheia", com Benedito Lobo e Antonio Rago; "O legume que ele quer", com Manezinho Araujo e "Quem bate sou eu!", com Artur Bernardo. Também é de 1956 o samba "Iracema", gravado pelos Demônios da Garoa no mesmo ano e regravado, em 1974, por Adoniran Barbosa e em 1980 por Adoniran Barbosa junto com Clara Nunes, com acompanhamento de Dino, em seu violão de sete cordas. "Iracema" foi gravado também, entre outros intérpretes, por Beth Carvalho e por Jards Macalé.

O ano de 1957 traz as composições de Adoniran "Terreque, Terreque", feita em parceria com Avaré e Antonio Rago, e a belíssima "Bom dia tristeza", feita em parceria com Vinícius de Moraes, embora Adoniran e Vinícius nunca tenham se encontrado pessoalmente. "Bom-dia tristeza" foi gravada em 1957, por Araci de Almeida, e em 1958 e 1963 por Maysa. Em 1958, Adoniran compôs, em parceria com Antonio Rago e Geraldo Blota, "Dotô Vardemá"; em parceria com Osvaldo Molles, "Pafunça"; com Hilda Hilst, Adoniran compôs "Quando te achei" e com José Mendes e Arrelia, compôs "Quero casar". Os Demônios da Garoa voltaram a fazer sucesso com a gravação, em 1958, do samba de Adoniran Barbosa "Abrigo de vagabundos". São de 1959 as composições de Adoniran "Morro da Casa Verde", "Perdoei" e, ainda, "Aqui, Gerarda" e "Juro Amor", em parceria com Ivan Moreno e Joca, e "Dor de Cotovelo" e "Sai água da minha boca", em parceria com Osvaldo Molles. Em 1960 aparecem os sambas "Agora Vai" e "Chora na Rampa" e, com Joca e Geraldo Blota, a marcha "Bananeiro", com Hervê Cordovil o samba "Prova de carinho" e também o conhecidíssimo samba "Tiro ao álvaro", gravado por Adoniran Barbosa junto com Elis Regina, em 1980.O ano de 1962 foi fraco em composições: apenas uma, "Vem, Amor", feita em parceria com Geraldo Blota. Em 1963, Adoniran compôs, com Edmundo Cruz, o samba "Escada da Glória" e, com Osvaldo Molles, a marcha "Segura o Apito". Em 1964, Adoniran compôs o samba "A luz da Light" e ainda o samba, lançado pelos Demônios da Garoa, que recebeu o primeiro prêmio do Carnaval no quarto centenário da fundação do Rio de Janeiro, em 1965, "Trem das onze". Aliás, "Trem das Onze" foi a primeira composição paulista a realmente sacudir os festejos carnavalescos do Rio de Janeiro. Foi revalorizado por Gal Costa num show ao vivo, em 1973, cuja gravação magnetiza o ouvinte, passando a ser um dos momentos mais empolgantes da MPB. Com o sucesso de "Saudosa Maloca", Adoniran havia comprado um terreno em Cidade Ademar. Com o dinheiro de "Trem das Onze" construiu uma casa nesse terreno. Adoniran participou, também, de novelas de televisão e programas humorísticos da TV Record, de São Paulo, como 'Papai sabe nada' e 'Ceará contra 007'.

Continuando a compor numa linguagem que reconstituía a mistura de diferentes sotaques dos migrantes de São Paulo, Adoniran compôs, em 1965, os sambas "Eu vou pro samba", "Tocar na Banda" e "Samba Italiano", este uma sátira aos italianos.Ainda de 1965, são: "Ai, Guiomar", com Osvaldo Molles; "Já tenho a solução", com Clóvis de Lima; "Jabá Sintético", com Marcos César; "Minha Roseira", com Dedé; e "Agüenta a mão, João", com Hervê Cordovil, esta regravada pelo Grupo Fundo de Quintal, em 1990. Em 1966 Adoniran compôs "Nunca mais faço Carnaval" e com Marcos César, compôs "Já fui uma brasa". De 1967 são os sambas "O casamento do Moacir", em parceria com Osvaldo Molles; "Chá de Cadeira", com Jucata; e "Quem é vivo sempre aparece", com Corvino. O ano de 1968 traz as composições "Mulher, patrão e cachaça", com Osvaldo Molles e "Vila Esperança", com Marcos César. A morte de Osvaldo Molles acabou provocando um vácuo na carreira humorística de Adoniran. Mas os mais jovens gostavam de seu trabalho e ele acabou tomando outro rumo. Ficou famoso e admirado, tendo suas músicas interpretadas por grandes nomes da MPB. E continuou compondo. Em 1969, Adoniran compôs "Despejo na favela" e "Não quero entrar" e, ainda, "Comê e coçá, é só começá", com Geraldo Blota e "Não precisa muita coisa", com Benito Di Paula. Em 1970, compôs "Bem eu quisera" e com Hervê Cordovil, compôs "Olhando prá lua". Em 1971, também com Hervê Cordovil, compôs "É fogo". Em 1972, em parceria com Rolando Boldrin, Adoniran compôs "Eu quero ver quem pode mais". Sozinho, compôs as marchas "Como vai, Dr. Peru?", "Nóis viemos aqui prá quê?", "Senta, Senta" e o samba "Acende o candieiro", regravado por Marlene em 1990. Em 1973, finalmente, Adoniran entrou num estúdio para gravar o seu primeiro LP. Também em 1973, Adoniran compôs "O caminhão do Simão" e com Rolando Boldrin, compôs "Três heróis". Em 1974, compôs "Véspera de Natal" e, em parceria com René Luiz, "Velho Rancho". Em 1975, Adoniran gravou seu segundo LP e compôs "Vide verso meu endereço". Em 1979, em parceria com Carlinhos Vergueiro, Adoniran compôs "Torresmo à milanesa", considerado um dos mais expressivos sambas da última fase de Adoniran. Em 1980 Adoniran gravou seu terceiro e último LP. Muitas composições suas transformaram-se em verdadeiros clássicos da MPB.
Casado com Dona Matilde, em 1942, Adoniran Barbosa não tinha filhos e teria completado 50 anos de carreira em 1983, se não tivesse morrido, na tarde de 23 de novembro de 1982, por insuficiência cardíaca, agravada por enfisema pulmonar. Seu velório foi um desconsolo total, não amenizado nem mesmo pela pinga que corria respeitosamente. Adoniran foi velado ao som de "Trem das Onze". Na hora do enterro, mais de 500 vozes entoaram "Saudosa Maloca". Adoniran se foi, levando consigo a sua marca registrada:o chapéu, o cachecol e a gravatinha borboleta. Mas deixou marcas inapagáveis de seu samba paulistano, parte integrante da nossa MPB.

fonte: MPB Cifra Antiga

roberto ribeiro

Roberto Ribeiro construiu uma respeitável carreira de intérprete e compositor desde a década de 60. Em seu repertório, incluíam-se sambas de todos os tipos, do partido alto aos sambas românticos e outros ritmos africanos. Sua origem no carnaval ocorreu na Serrinha. Sobrinho de Dona Ivone Lara, Roberto cantava nas rodas de samba as músicas de sua tia e partiu para o profissionalismo. Descoberto pela gravadora EMI, sua estréia fonográfica foi com a gravação de compactos em parceria com a cantora Elza Soares, em 1972. O sucesso dos compactos fez a gravadora investir no jovem cantor, no disco “Sangue, suor e raça”. Seu primeiro sucesso foi a gravação do samba “Estrela de Madureira”, de Acyr Pimentel e Cardoso. Esta composição perdeu a disputa no Império Serrano para representar o enredo “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira”, no entanto, foi um grande sucesso de execução radiofônica. A partir daí, sua carreira começou a ser notada pela crítica e pelo público, graças à beleza da sua voz e perfeito timbre para cantar o samba carioca. Ao todo, Roberto Ribeiro gravou em torno de 20 discos. Entre seus maiores sucessos estão "Acreditar", "Todo Menino É um Rei", "Amor de Verdade", “Meu Drama”, “Vazio” e “Amei demais”. Era casado com a compositora Liette de Souza, com a qual fizeram várias músicas de sucesso.

A estréia de Roberto Ribeiro como puxador de samba na Império Serrano aconteceu em 1971, com “Nordeste, seu povo, seu canto, sua gente”. Afastou-se da escola em 1972 e 1973 e retomou o posto em 1974, com o samba “Dona Santa, a rainha do maracatu”. Com sua voz bem timbrada e fraseado enxuto, Roberto Ribeiro foi a voz oficial da escola da Serrinha até o carnaval de 1981, quando resolveu afastar-se alegando problemas de relacionamento com a diretoria da época. No entanto, nunca abandonou a verde-e-branco de Madureira, sempre desfilando no chão da escola, mesmo quando o Império Serrano amargava o rebaixamento. Roberto Ribeiro também era integrante da ala de compositores da Império Serrano. Compôs duas pérolas para a escola: “Brasil, berço dos imigrantes”, também gravado em seu disco solo, em 1977, e “Municipal, maravilhoso, 70 anos de glórias”, em 1979.

O auge da carreira musical de Roberto Ribeiro aconteceu da segunda metade dos anos 70 até pouco antes da explosão do pagode, em meados dos anos 80, gênero que revelou sambistas como Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e o Grupo Fundo de Quintal. Uma doença congênita irreversível o fez perder a visão de um olho, atrapalhando-lhe a carreira. Morreu nos primeiros dias de janeiro de 1996, vítima de um acidente de trânsito, no qual foi atropelado e o motorista não lhe prestou socorro. Roberto Ribeiro deixou de puxar os sambas enredo no Império Serrano em 1981, mas, até 1992, animava as arquibancadas cantando os sambas de esquenta antes dos desfiles da escola da Serrinha, na Sapucaí. Os últimos registros fonográficos de sua voz foram num CD em homenagem a Clara Nunes (1995) em que, graças às modernas tecnologias de estúdio, fez dueto com a voz da falecida cantora na música Coisas da Antiga; e no CD do Império Serrano, na coletânea Escolas de Samba, da gravadora Sony. No disco, Roberto cantou os sambas Aquarela Brasileira, Bumbum Paticumbum Prugurundum, Exaltação a Tiradentes e Eu Quero.


Roberto Ribeiro interpreta a canção "Acreditar" de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho.

ederaldo gentil

Ederaldo Gentil, cantor e compositor, nasceu no dia 7 de setembro de 1943, no Largo Dois de Julho, um dos tradicionais bairros do centro de Salvador. Seus pais foram D. Maria José de Souza (D. Zezé) e Sr. Carlos Gentil Peres, antigo relojoeiro da capital baiana. Foi no Largo Dois de Julho que o menino Ederaldo Gentil passou parte da sua infância, brincando, estudando e trabalhando na modesta oficina do pai. Foi desta forma que aprendeu o ofício de relojoeiro o que ajudava nas rendas financeiras da família bastante numerosa. Ainda adolescente mudou-se para o bairro do Tororó, também na área central da cidade, que era nessa época, o mais forte reduto do carnaval baiano. Ali podiam ser encontradas diversas agremiações carnavalescas, como o bloco Os Apaches do Tororó, a Escola de Samba Filhos do Tororó, entre outras. O menino Ederaldo começou bem cedo o gosto pelo carnaval, acompanhando o pai nos bailes à fantasia que eram realizados nos clubes tradicionais da cidade. Por residir perto do QG do samba baiano, Ederaldo passou a freqüentar os ensaios da bateria da escola Filhos do Tororó. A sua facilidade em tocar instrumentos rítmicos logo despertaria a curiosidade e atenção dos mais velhos e compenetrados sambistas. Desses, em especial Arnaldo Silva (o Sêu Arnaldo), então presidente da Escola, foi quem lhe deu primeiro incentivo para o entrosamento no mundo do samba. Ainda adolescente, Ederaldo começa a elaborar as suas primeiras composições, participando ativamente da ala dos compositores da escola de samba Filhos do Tororó. Os seus sambas passam a ser cantados nos ensaios da escola.

A LUTA DO DIA À DIA
Do lado de cá, as dificuldades da vida obrigavam o jovem Ederaldo a procurar outras atividades profissionais para sobreviver. Por esse período, chegou a ter uma rápida passagem pelo mundo do futebol, onde atuou como meia-esquerda no Esporte Clube Guarany. Fazia uma dupla imbatível com o ex-jogador André Catimba, este que seria, mais tarde, um dos maiores nomes da história do Esporte Clube Vitória. Consta que Ederaldo Gentil chegou também a treinar no Vitória, porém a sua vocação maior não era o futebol, e sim, a música popular, e em especial, o samba. Contam os que o viram jogar que, comparado a muitos dos “craques” de hoje, o Ederaldo teria, com certeza, espaço em qualquer grande clube do Brasil ou do exterior, entretanto a música falaria mais alto em sua opção de vida. Por esse tempo continuava ligado à música compondo suas canções. No ano de 1967 vence um concurso municipal para o carnaval de Salvador com a música "Rio de Lágrimas", defendida pela cantora Raquel Mendes. A partir daí, durante alguns anos, torna-se presença constante nesses concursos, sempre obtendo as primeiras colocações. Chegou a repetir a façanha de obter o primeiro lugar por três anos consecutivos. Uma das composições vitoriosas dessa fase foi o samba "Esquece a Tristeza" que seria gravado mais tarde pelo cantor e compositor Tião Motorista, já falecido. Ainda em 1967, vence o concurso interno de samba-enredo da escola Filhos do Tororó com a música "Dois de Fevereiro", a qual aborda o tema da famosa festa de Yemanjá, que acontece anualmente no bairro do Rio Vermelho. Foi nesse ano que ele teve, pela primeira vez, a alegria de ter dois sambas seus na boca do povo. No ano de 1969 houve um fato, inusitado até hoje, na história do carnaval baiano, quiçá do país. Indisposto com as dissenções internas da sua escola, Ederaldo resolve se afastar. Imediatamente seria assediado pelas escolas concorrentes que o convidam para compor seus sambas-enredos. O resultado foi que, no carnaval de 1970, todas as outras nove escolas de samba de Salvador saíram no desfile principal da cidade com sambas-enredos assinados pelo mesmo compositor, Ederaldo Gentil. A única que não trazia essa autoria era, simplesmente, a sua escola - Filhos do Tororó. Esse fato por si só já seria digno de registro no livro de recordes - O Guinness Book.

A ESTRÉIA NACIONAL
Como compositor urbano, fora do ambiente carnavalesco, Ederaldo Gentil aportou para valer na cena da MPB no ano de 1970 através das composições Berequetê e Alô Madrugada (esta última em parceria com Edil Pacheco). O criador desses sucessos foi o cantor paulista Jair Rodrigues, na época um dos nomes de maior cartaz como sambista. Foram gravadas no disco LP “Talento e Bossa – JAIR RODRIGUES”, Philips R765. 117, ano de 1970. Foi o batismo musical deste jovem e talentoso músico. Essa abertura facilitou-lhe a aproximação com outros cantores nacionais como Alcione, Eliana Pittman, Leny Andrade e Conjunto Nosso Samba que se interessaram por suas músicas. Estava dado o primeiro passo para ter, dessa forma, o devido reconhecimento nacional como compositor. Em 1972, transferiu-se temporariamente para a cidade de São Paulo onde tenta gravar o seu próprio disco. Nesse tempo, recebeu o incentivo e a ajuda de pessoas como o ator Juca de Oliveira, o produtor e pesquisador musical Fernando Faro, Walter Silva - o “Pica-Pau” e o Magno Salermo. Esse tempo na capital paulista se dividia em apresentações em programas de rádio e também de TVs, como a TV Cultura e a TV Record (Mixturação). Embora contasse com a boa vontade dos amigos paulistas, o disco demorava a sair, e, decepcionado, retorna no final de 1972 à sua Bahia. É o reencontro com a família, os amigos e também com seu ofício de relojoeiro. Reaproxima-se também da sua escola de samba, onde, após as pazes com os dirigentes, resolve participar do enredo daquele ano que comemorava o cinqüentenário da maior ialorixá da Bahia, Menininha do Gantois. O seu samba "In-Lê-In- Lá" é, para variar, novamente o vencedor desse ano. Seria também a sua despedida da atividade de compor sambas-enredos. Essa música seria gravada por ele próprio alguns anos depois no seu segundo disco LP.

O OURO E A MADEIRA
Em 1975, a gravadora Chantecler o convoca de volta a São Paulo onde grava um compacto simples (vinil), que trazia as composições "O Ouro e a Madeira" e "Triste Samba", ambas de sua exclusiva autoria. A primeira composição fêz um relativo sucesso em sua voz, despertando a atenção do radialista e produtor musical Adelzon Alves, na época trabalhando com a cantora mineira Clara Nunes e outros artistas do mundo do samba. Foi no famoso programa radiofônico do Adelzon Alves, o Comando da Madrugada, da rádio Globo do Rio de Janeiro, que se decidiu a gravação do samba O Ouro e a Madeira pelo grupo Nosso Samba (acompanhantes oficiais da Clara Nunes). Essa nova gravação do samba foi, como se diz no jargão do mundo fonográfico, um estouro! Esse destaque fêz com que a gravadora Chantecler o convidasse para uma nova gravação. Desta feita, para a sua surpresa, não mais um simples compacto, mas sim, um longa-duração (LP), o primeiro de sua carreira. E assim surge, ainda em 1975, o disco Samba, Canto Livre de Um Povo, que trazia novamente o sucesso "O Ouro e a Madeira". Esse disco é hoje uma raridade, visto que ainda não foi reeditado em CD, assim como os seus outros discos em vinil. Embora não tenha tido um maior rigor técnico da produção, esse trabalho do Ederaldo mereceu, na época do seu lançamento, comentários bastante favoráveis da crítica especializada. Ainda pela gravadora Chantecler, lança no ano seguinte (1976) outro LP, intitulado Pequenino. Dessa vez a produção se esmerou (o que não aconteceu com o primeiro), e o disco, tecnicamente irrepreensível, trouxe um time de músicos e arranjadores da pesada como João de Aquino, Waldir Silva, Altamiro Carrilho, Luna, Eliseu, Marçal, Jorginho, Pedro Sorongo e um coro de primeira com Dinorá, Zélio, Eurídice, Da Fé, Therezinha e outros. No repertório desse LP destacam-se os sambas De Menor, Dois de Fevereiro e In-Lê-In-Lá. Estava então consolidado o seu nome no universo fonográfico brasileiro. São vários os convites para participar de shows e apresentações em rádio e TV. Participou, em 1977, na rádio Jornal do Brasil RJ como entrevistado especial do programa Especial JB-AM, apresentado pelo radialista Haroldo Saroldi. Já consagrado na mídia, Ederaldo retoma em Salvador aos seus shows. Ao seu lado grandes companheiros do mundo do samba como Edil Pacheco, Batatinha, Riachão, Nelson Rufino, Walmir Lima e outros. No final da década de 70, protagoniza ao lado de Edil Pacheco e Batatinha (já falecido) o show O Samba Nasceu na Bahia, que ficaria célebre na história da música baiana. A despeito da qualidade do seu trabalho, inexplicavelmente permanece cerca de sete anos sem gravar. Parece que os seus discos não alcançaram vendagens que atendessem às expectativas financeiras dos executivos das gravadoras. Devido a esse "jejum" fonográfico, resolve lutar contra a indiferença para com o seu trabalho. Começa no ano de 1982 a produzir um disco independente, concluindo o projeto dois anos depois com o lançamento do LP denominado Identidade. Esse disco foi todo gravado nos estúdios da WR em Salvador, contando com o apoio de diversos amigos. Entre esses, alguns músicos, compositores, divulgadores e outras pessoas identificadas com o projeto. Em seu texto, na contra-capa do disco, ele cita todas as pessoas (uma relação enorme) que o ajudaram nesse trabalho. Sobre o valor do Ederaldo Gentil como compositor, o produtor e crítico musical Roberto Moura, assim se expressa na contra-capa do disco Pequenino: "Ederaldo guarda um estilo macio. Mesmo nos temas ácidos. Talvez alguma coisa entre Ataulfo Alves e seu parceiro Batatinha".

O DECLÍNIO
Durante todos esses anos, continuou junto com os parceiros Edil Pacheco e Batatinha, promovendo a anual festa da noite do samba na Bahia todo dia 2 de dezembro. O tempo passou e Ederaldo Gentil viu o seu nome sendo pouco à pouco esquecido pela mídia e pelas gravadoras. As suas canções, consagradas por vários cantores nacionais, ainda continuavam sendo executadas nos bares das noites baianas, porém muitos nem sabiam que eram de sua autoria. Contam os amigos que, antes da reforma do bairro do Pelourinho, ele ainda gostava de circular pelas ruas do Centro Histórico, e, às vezes, chegava a corrigir quando os cantores e boêmios erravam cantando suas músicas. Esse fato se deu mais de uma vêz no espaço cultural da Cantina da Lua no Terreiro de Jesus. Os anos 90 seriam terríveis para os artistas tradicionais do samba baiano. A invasão do fenômeno batizado primeiramente de fricote e mais tarde, indevidamente, de axé-music, é a pá de cal para a música de Ederaldo Gentil e outras da mesma linha. O historiador Luiz Américo Lisboa Júnior, em seu livro 81 Temas da Música Popular Brasileira, conta que no ano de 1991 Ederaldo participou, com outros compositores do samba tradicional, de um projeto que usava a tecnologia do trio elétrico para apresentar um outro lado do carnaval baiano. Houve até apoio da prefeitura, mas o momento era ingrato, pois a concorrência com as estrelas da chamada axé-music era desleal. Tudo isto, somado à intolerância de algumas pessoas, foi a gota d´água para Ederaldo Gentil. Vencido, e sem forças para resistir, entrega os pontos afastando-se de vêz do mundo artístico. Provavelmente tudo isso deve ter contribuído para que ele tenha se entregue ao desânimo e ao pessimismo, comportamentos que o levaram a um isolamento do mundo artístico e social. Hoje vive recolhido a um exílio voluntário, dentro da sua casa no bairro da Vila Laura, onde reside com a irmã Denise Gentil e outros familiares.

AS HOMENAGENS
No ano de 1999, o seu parceiro e amigo Edil Pacheco produziu o CD "Pérolas Finas", patrocinado pela Copene (Companhia Petroquímica do Nordeste) e apoiado pelo órgão do estado o FAZCultura, que mostra uma visão da carreira de Ederaldo Gentil. O disco conta com participações especiais do saudoso João Nogueira, Carlinhos Brown, Elza Soares, Beth Carvalho e Gilberto Gil, entre outras. Do repertório do autor foram escolhidas músicas como por exemplo "Saudade Me Mata", "Rose", "Barraco" e "Identidade". O disco é um primor como representação da pequena, porém valiosa, obra de Ederaldo Gentil. Nesse CD, todos os artistas que participaram do projeto o fizeram com um carinho muito grande pelo trabalho do compositor baiano. As músicas são quase todas releituras de outras gravações, exceto a "Maria da Graça", até então inédita. Esta canção estava a cargo da interpretação de Chico Buarque, que no momento da gravação não pode estar presente, cabendo ao incansável companheiro Edil Pacheco interpretá-la. Gravado basicamente nos estúdios da WR (Salvador) e Cia dos Técnicos (Rio), além dos intérpretes, o CD traz um time de músicos de primeira como Cristóvão Bastos, Luciana Rabello, Carlinhos Marques, Ivan Bastos, Maurício Carrilho e outros. A ilustração da capa, que é um primor de imagem, ficou a cargo da competência de Elifas Andreatto. "Pérolas Finas" já pode ser considerado um clássico da MPB. Está necessitando de uma outra edição, visto que a primeira de três mil discos está esgotada. Sobre o disco assim se expressou o produtor, Edil Pacheco: "Tive uma felicidade na escolha dos intérpretes. Os músicos participaram de boa vontade. O disco serve para mostrar a obra do Ederaldo de uma forma mais ampla... ele é um poeta!". O lançamento desse disco aconteceu às 19 horas do dia 08 de setembro de 1999, na Praça Tereza Batista, no Pelourinho onde foi oferecido um caruru aos convidados. Entre os artistas presentes no evento estavam alguns dos que participaram do disco como Jair Rodrigues, João Nogueira, Lazzo, Vânia Bárbara, e Paulinho Boca de Cantor. Alguns até adiaram compromissos para prestigiarem o homenageado. Entre o público em geral, pessoas de renome, como os artistas Duda Valverde, Carlinhos Cor das Águas, Clécia Queiroz, o poeta José Carlos Capinan, a coordenadora do Projeto Pelourinho Dia & Noite, Tânia Simões, além de muitos amigos, admiradores e gente interessada do meio cultural. No dia 5 de outubro de 1999, às 18 horas, a rádio EDUCADORA FM apresentou o seu programa ESPECIAL DAS SEIS, todo dedicado ao disco Pérolas Finas - Homenagem a Ederaldo Gentil, apresentando as músicas: Luandê, com Gilberto Gil; A Saudade Mata, com Elza Soares; e Barraco, com Carlinhos Brown, entre outras.

OS PARCEIROS E SUCESSOS
Embora Ederaldo Gentil seja um compositor completo (muitas de suas canções não têem co-autores), não se pode esquecer daqueles compositores seus parceiros que, sem dúvidas, auxiliaram no brilho de suas criações. São eles: Edil Pacheco, Batatinha, Nelson Rufino, Paulinho Diniz, Eustáquio Oliveira, Luiz Carlos Capinam, Anísio Félix, Roque Ferreira e Gereba. Destaque também para os cantores que interpretaram suas músicas como os já citados Jair Rodrigues, que foi o primeiro grande incentivador, Conjunto Nosso Samba e Alcione (Feira do Rolo), além de Roberto Ribeiro (Rose, c/ Nelson Rufino), Lazzo e outros.

fonte: Lourival Augusto

da antiga...


Mano Décio da Viola (de chapeu) e Carlos Cachaça ao lado.


Candeia, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.


Velha Guarda da Portela (primeira formação em 1975)

wilson batista

Wilson Batista de Oliveira, compositor, nasceu em Campos RJ, em 3/7/1913 e faleceu no Rio de Janeiro RJ em 7/7/1968. Filho de um guarda municipal de Campos, ainda menino participou, tocando triângulo, da Lira de Apolo, banda organizada por seu tio, o maestro Ovídio Batista. Ainda na cidade natal, fez parte do Bando , para o qual compunha algumas músicas e, pretendendo aprender o ofício de marceneiro, freqüentou o Instituto de Artes e Ofícios. No final da década de 1920, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro. Passou então a freqüentar os cabarés da Lapa e o Bar Esquina do Pecado, na Praça Tiradentes, pontos de encontro de marginais e compositores, tornando-se amigo dos irmãos Meira, malandros famosos da época, cuja amizade lhe valeu várias prisões. A seguir, começou a trabalhar como eletricista e ajudante de contra-regra no Teatro Recreio. Com 16 anos, fez seu primeiro samba, Na estrada da vida, lançado por Araci Cortes no Teatro Recreio e gravado em 1933 por Luís Barbosa. Seu primeiro samba gravado foi Por favor, vai embora (com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva), pela Victor, na interpretação de Patrício Teixeira, em 1932. A partir de então, passou a fazer parte da Orquestra de Romeu Malagueta, como crooner e ritmista (tocava pandeiro). Em 1933, Almirante gravou sua batucada Barulho no beco (com Osvaldo Silva) e três intérpretes (Francisco Alves, Castro Barbosa e Murilo Caldas) divulgaram seu samba Desacato (com Paulo Vieira e Murilo Caldas), que fez muito sucesso. Sempre freqüentando o mesmo ambiente de boêmia, fez a apologia do malandro no seu samba Lenço no pescoço, já gravado em 1933 por Sílvio Caldas, que deu início à famosa polêmica com Noel Rosa, o qual respondeu no mesmo ano com Rapaz folgado, contestando a identificação do sambista com o malandro. Sua réplica a Noel veio no samba Mocinho da Vila, recebendo então como resposta, em 1934, Feitiço da Vila (de Noel Rosa e Vadico). Continuando a polêmica, compôs Conversa fiada, ao qual Noel contrapôs, em 1935, o samba Palpite infeliz. O caso terminou com dois sambas seus, Frankenstein da Vila e Terra de cego, que não tiveram resposta. Os dois polemistas conheceram-se entre um e outro desafio e tornaram-se amigos. As músicas dessa polêmica foram reunidas, em 1956, num LP de dez polegadas da Odeon, cantadas por Roberto Paiva e Francisco Egídio - Polêmica. Continuando sua vida de boêmio-compositor, vendendo sambas e fazendo parcerias "comerciais", conheceu, no Café Nice, na Avenida Rio Branco, o cantor e compositor Erasmo Silva, com quem formou um conjunto, com Lauro Paiva ao piano e Roberto Moreno na percussão. Com o conjunto, realizou apresentações em Campos RJ e, de volta ao Rio de Janeiro, formou, em 1936, uma dupla com Erasmo Silva - a Dupla Verde e Amarelo - que participou da vocalização da orquestra argentina Almirante Jonas, que estava de passagem no Rio de Janeiro, seguindo com ela para Buenos Aires, Argentina, onde ficaram por três meses, ainda em 1936. De volta ao Brasil, trabalharam durante mais de um ano na Rádio Atlântica, de Santos SP, e, depois, na Record, da capital paulista, onde também gravaram, com as Irmãs Vidal, pela Columbia, seu primeiro disco, com Adeus, adeus (Francisco Malfitano e Frazão) e Ela não voltou (dos mesmos compositores e mais Aluísio Silva Araújo). Obtendo certo sucesso, seguiram para uma temporada em Porto Alegre RS, voltando a São Paulo para trabalhar na Rádio Tupi.