Marco César Trio



Criado pelo bandolinista Maestro Marco César com o objetivo principal de divulgar a música instrumental pernambucana especialmente a de cordas dedilhadas. O trio vem compondo canções próprias, pesquisando e divulgando as obras de várias gerações de compositores pernambucanos, de reconhecido valor artístico com características eruditas e populares. É composto por experientes instrumentistas profissionais de formação musical superior que atuam nos diversos seguimentos da cultura musical pernambucana. Referência como arranjador e instrumentista entre os grandes da música popular brasileira, o pernambucano Maestro Marco César, 49 anos, inclina-se na reverência ao seu próprio talento. Em mais de três décadas dedicadas à música, este bandolinista nascido em Pesqueira, Agreste do estado, já teve muitas provas e parceiras que dignificaram a sua qualidade. Porém, nesse percurso ao lado de nomes importantes da produção musical do país, deixa para 2010 a gravação do primeiro disco com a impressão da qualidade de seu nome. Modesto, foi preciso o reconhecimento, apoio e gratidão de dois instrumentistas da nova geração de ‘monstros’ da música. Ao lado do percussionista Lucas dos Prazeres, 25, e do violonista Pepê, 31, o bandolinista se mostra como um dos mais versáteis solistas da atualidade. Juntos, dão vida e som ao Marco Cesar Trio, que traz elementos da formação tradicional do violão, percussão e bandolim para inovar num repertório repleto de referências regionais, pernambucanas. ‘Este primeiro disco é fruto de inquietantes pesquisas’, garantem os três. Na incessante busca para mostrar um ‘bandolim diferente’, o Marco Cesar Trio leva ao instrumento, mais comum para arranjos de samba e choro, um momento de inspiração da música popular nascida em Pernambuco. Pioneiro, tece nas cordas dedilhadas a ciranda, o cavalo-marinho, o frevo, maracatu, caboclinho e outros gêneros fincados na tradição. Dos baques populares e eruditos, o Marco César Trio conta com Lucas dos Prazeres, percussionista apontado por mestres como Naná Vasconcelos como a perpetuação da atuação brasileira para o mundo. Ganha ainda a harmonia do violão de sete cordas e do cavaquinho de Pepê, garoto de Jaboatão dos Guararapes que com Marco César tomou as primeiras lições ao violão. Antes de formarem o trio no final de 2008, Marco César, Pepê e Lucas dos Prazeres já haviam dividido palcos com formações de referência, como a Orquestra Retratos de Nordeste, Orquestra de Pau e Corda do Recife e o sexteto Capibaribe Trio. Agora, atuam num triângulo de belas interpretações e composições de um projeto enriquecedor para eles e, certamente, para os que terão a chance e o prazer de ouvi-los. Um presente com ares de bom e sonoro futuro.

Indiscutível obra prima, Marco César, Pepê e Lucas agregam valores para a gravação de seu primeiro CD e tendo o audiovisual como um produto que terá, na próxima década, um avanço na área da apresentação e divulgação das bandas, grupos e projetos musicais em geral, temos como objetivo aproveitar o processo de gravação do CD do Marco César Trio para que seja feita a gravação do audiovisual. Garantindo assim um material de maiores recursos, para a apresentação e divulgação do trabalho destes três artistas. Podendo este ser utilizado para fins, mais comuns, como TV, algum programa de música, mesmo um DVD vendável, tendo um resultado muito mais instantâneo na comunicação, podendo apresentar suas inquietantes pesquisas para um público mais abrangente, e isso é muito mais relevante nos nossos dias de muita informação simultânea. Visando também o custo beneficio para melhor utilização do incentivo.

Volta Pro Morro



Volta Pro Morro
(Martinho da Vila)

Volta pro morro
Seu lugar ainda esta vazio
Venho pedir um socorro
Pra nossa escola
Que agora só tem samba frio
Pois o neguinho
Que você deixou
Nunca mais compôs, nunca mais cantou
Com a sua tristeza
A alegria do morro acabou

Mas se você voltar
Vamos ter samba bonito
Todo mundo vai cantar
Vou marcar um novo grito
Pra lhe entregar a bandeira
E a nossa escola vai ser
Novamente a primeira



Martinho da Vila - Meu Laiáraiá (1970)

Nei Lopes e Wilson Moreira - RJ

Samba da Alforria - RJ

Vai, Ratinho... Vai vadiar por aí...


Perdemos o nosso Rato.

De todos os sambistas que conheci, dois deles tive a ventura de acompanhar bem de perto: Camunguelo e Ratinho. Era a certeza de estar convivendo com dois artistas do povo naquilo que esta definição pode ter de mais preciso e valioso. Cada um de seu jeito. Camunguelo já foi antes e já escrevi o que queria sobre ele, mesmo tendo sido tão pouco.

Ratinho poucas vezes se apresentava. Sabia que não cantava bem.

Ao que eu saiba teve dois "desalinhos" na vida artística. Um deles esse, não cantar direito. Boas mesmo eram aquelas já agora saudosas rodas de samba da Toca do Rato, em sua casa, onde ficava à vontade, de bermudas e chinelos, cantando as pérolas que compunha no convívio de seus admiradores mais próximos.

Nas poucas vezes em que se apresentava, pelo menos em algumas, me convidava, na condição de seu admirador absoluto, para fazer a introdução de seus shows. E como eu gostava de fazer isso. Eu dizia para a platéia que tinha absoluta certeza de que, muitas vezes naquela noite, muitos dos ali presentes exclamariam baixinho: "Puxa, mas este samba é dele também?" E era assim que era.

Talvez tenha sido o compositor mais presente a cada um dos discos da carreira de Zeca Pagodinho no momento exato em que sua carreira ascendia para o que é hoje. E assim o grande público muitas vezes não chegava a identificar a autoria de cada sucesso de cada disco muitos em parceria com Monarco. A cada pérola ouvia-se o baixo rumor que eu previra, sempre com um sorriso de surpresa. Eu adorava cada um desses momentos; adorava mais ainda em ver aquele sorriso quase irônico do Rato, como se dissesse: "o quê que vocês querem que eu faça?"

Incontáveis sucessos. Mais incontável ainda a quantidade de sambas prontos sem gravação. Este o outro azar de Ratinho na vida: seu afastamento de Zeca Pagodinho. Um tremendo azar, primeiro pelo abalo em uma relação tão sólida, de décadas, iniciada quando os dois jovens era da "pá virada", compondo e cantado sambas por aí pelas madrugadas dos subúrbios cariocas. Depois pela ausência de novos sambas nos novos discos - agora CD’s- dos quais Ratinho ficava de fora.

No mundo do samba cada vez mais sem intérpretes, cada vez mais com sambistas cantando suas próprias composições, cada vez mais sem controle da arrecadação de direitos autorais, a vida de Ratinho tomou outro rumo.

Bacharelou-se em direito para entender melhor e defender a comercialização de sua obra. E aí viu que o "buraco era mais em baixo", entendia a cada vez mais por que o samba ia bem e o sambista ia tão mal. Entristecia-se com a desunião da gente do samba. Muita gente próxima deixou de ser tão próxima. Malandro que era, compreendia: a vida é que era assim. Nunca me falou direito o que houve entre ele e seu antigo companheiro.

Agora Ratinho vai embora.

Sambista completo, de meio de ano e de carnaval. Centenas e centenas de sambas gravados. Sete sambas escolhidos por sua escola. Inúmeros outros por aquela infinidade de blocos da região de Pilares, Piedade, Inhaúma. Estandarte de ouro em 1978 com a Festa da Uva. Uma grande perda. Tantos planos, tantos projetos, tanto ainda para deixar para nós...

Um baú de sambas inéditos, os últimos com o grande Elton Medeiros que certamente os trará para nós. Outros ... sabe-se lá quantos e com quem. Uma antologia de "causos" vividos por ele em meio a sambistas, em vias de catalogação para publicar. Um calhamaço de memórias suburbanas onde escondia e revelava tantas de suas saudades e recordações de menino português vindo à luz para o mundo pelas ruas de Terra Nova e Pilares.

Deixa na história um samba inesquecível, antológico naquilo que o carnaval brasileiro tem de mais original, mais precioso, e mais ameaçado em sua essência: o samba enredo. Era o ano de 1982, a escola de samba de seu bairro, a Caprichosos, "trazia" o enredo sobre a feira- livre, do carnavalesco Luis Fernando Reis. Ali uma aula de carnaval, pelo menos daquilo que para mim é o carnaval das escolas de samba no que ela tem de maior valor artístico, cultural. Digo "para mim" porque é esta a minha visão do carnaval e que cada vez mais vejo à distância: o povo brasileiro contando sua própria história, suas aventuras, anseios, mazelas e orgulhos.

A feira livre que o carnavalesco desejou, concebeu, desenhou e armou na pista obteve naquele samba a mais completa possibilidade de concretização musical temática e com o "espírito e alma" de uma escola que tanto desejamos ver de volta. Uma escola que tanta falta faz ao carnaval, um enredo que tanta falta faz no carnaval. Um samba que tanta falta faz no carnaval.

Ali o cenário carioca da feira encontrava a riqueza dos personagens da freguesa Lili e do feirante seduzido por ela. Nada mais carioca, nada mais brasileiro, nada mais moderno, vivo. Irreverente, carnavalesco, atual. Dei mole. Conversei muito com Ratinho sobre essas coisas. Agora vem a sensação de ter conversado tão pouco.

Ouví-lo contar de seus parceiros, lendários e já idos, Mijinha, Alcides, Argemiro, Manacéia, ivancué, Walter Rosa, todos da Portela, e mais Nonô do Jacarezinho, Anescarzinho e Geraldo Babão do Salgueiro, Guilherme de Brito, Nelson Cavaquinho e Jurandir da Mangueira e sua imensa admiração por seu Carlos (Cachaça). Do orgulho de ser definido como "sambista único" por Aldir Blanc na capa de seu disco.

Lamento a dor de sua família, dor que é nossa também. Mas fico feliz por seu nome, por sua história, pela sua vida. Por tudo que você deixou aqui para nós. A saudade ficará com sua gente, a sua memória nas rodas de samba desse país imenso, tão original.

Tão talentoso e único quanto você que agora vai.

Vai, Ratinho... vai vadiar por aí.

Fonte: Luis Carlos Magalhães

Morre Dona Fia

Morre Dona Fia, fundadora do Salgueiro e mãe de Almir Guineto.

O Salgueiro está de luto. Foi enterrado nesta terça-feira, no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, o corpo de Nair de Souza Serra, a Dona Fia. Mãe do compositor Almir Guineto e de Mestre Louro, a sambista, que tinha 90 anos, foi uma das fundadoras do Salgueiro e por muitos anos foi costureira da agremiação e destaque da ala das baianas.

Baluarte da vermelho e branco, Dona Fia estava afastada do Carnaval há mais de 20 anos, quando deixou o morro e se mudou para o Engenho da Rainha. Ficou famosa ao ser citada num samba eternizado pelo grupo Fundo de Quintal. Além disso, escreveu vários sucessos que foram gravados pelo filho Almir Guineto. Dona Fia, que estava internada no Hospital Salgado Filho, morreu na madrugada de segunda-feira, vítima de insuficiência renal.

Jamelão

O moleque Saruê primeiro foi engraxate, depois vendedor de jornal, e, finalmente, tocador de tamborim e cavaquinho nos subúrbios cariocas.

Virou Jamelão por invencionice talvez de um apresentador de programas de rádio, ou então de um gerente de gafieira. Isso não se sabe ao certo. Seu nome em cartório é José Bispo, nascido a 12 de maio de 1913, no bairro de São Cristóvão, mas é por Jamelão -árvore de fruto escuro e dulcíssimo- que o mundo o conhece.

Aos 15 anos, Saruê, cavaquinista e ritmista de certo prestígio em alguns poucos bairros da periferia carioca, conheceu o sambista Lauro Santos, o Gradim, que o levou à Escola Estação Primeira de Mangueira.

Na Mangueira, Jamelão começou na bateria, depois foi se enturmando com o pessoal do samba. Nessa época, ele não tinha quaisquer pretensões artísticas. Ia para a avenida para tocar tamborim e paquerar as meninas. Com o passar do tempo, começou a participar das rodas que ocorriam após o desfile, na Praça Onze.

Segundo ele, lá "paravam os batuqueiros", para fazer um "samba pesado. Samba duro, de roda". Essas rodas de samba, vez por outra, acabavam com a chegada da polícia. A explicação de Jamelão é que nessas rodas sempre aparecia um "Zé Mané querendo fazer o nome. A rapaziada, então, pegava ele na pernada. O sujeito guardava a raiva e voltava no ano seguinte, querendo vingança. Já vinha armado e aconteciam brigas sérias. A polícia sempre intervinha".

Depois das rodas de samba da Praça Onze, Jamelão, em 1945, participou, sem sucesso, de um programa de calouros na Rádio Ipanema. Talvez tenha sido nesse programa que ele ganhou seu apelido. Segundo o próprio Jamelão, quando ele saiu dos estúdios, ouviu o apresentador "anunciar determinada música a ser interpretada por Jamelão". Quando ouviu isso, ainda se perguntou: "quem seria esse tal de Jamelão?" Para sua surpresa o Jamelão era ele, pois o contínuo da Rádio Ipanema veio afobado e, segundo contou o próprio cantor em depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio, "ele me chamou, dizendo que era hora de eu entrar em cena para defender a música. E o apelido pegou."

O apelido pegou, mas o canto não. Jamelão foi gongado nesse concurso "quando esticava a última nota, um agudo respeitável", gaba-se ainda hoje.

Mas há uma outra versão para essa mesma história da qual fonte é também o próprio Jamelão. Ao ser perguntado a respeito do apelido, em uma entrevista concedida em 1998 ao "Jornal do Brasil", Jamelão disse: "É coisa de garoto. Minha mãe era doméstica e trabalhava no Colégio Independência, na rua Bela Vista, no Engenho Novo. A gente morava nos fundos do colégio, num barraco. Quando comecei a jogar futebol no Piedade Futebol Clube, a turma costumava sair e ir jantar num restaurante. Um dia me levaram para a gafieira e lá surgiu o nome Jamelão. O pessoal na brincadeira falou para o gerente que eu gostava de cantar. Não é que eu gostasse, eu sabia as músicas da época, a gente cantava junto. O cara não sabia meu nome e foi para o microfone e anunciou Jamelão. Ficou. Quando fui para a Rádio Tupi, nos anos 40, o Almirante, que era diretor, não queria que eu cantasse com o apelido. Queria me tirar da programação".

Mesmo não sabendo se o nome Jamelão surgiu numa gafieira ou numa rádio, uma coisa é certa: ele veio junto com a música e a poderosa voz que José Bispo tinha em si. Dois anos depois do gongo, ele venceu o concurso de calouros promovido pela Rádio Clube do Brasil e assinou, como prêmio pela vitória, um contrato de um ano com a gravadora Continental.

Em 1948, com o final do contrato com a Continental, passou para a Rádio Tupi, onde se apresentava nos "dancings" Brasil e Farolito. No ano seguinte, 1949, Jamelão começou a sua carreira como intérprete da Mangueira. Nesse mesmo ano, substituiu o cantor Francisco Alves em um show no Teatro João Caetano, no Rio.

Em 1952, já gozando de certa fama, Jamelão viajou para a França como "crooner" da Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo, para cantar em uma festa promovida por Assis Chateaubriand e pelo estilista francês Jacques Fath, no castelo de Coberville, nos arredores de Paris. A festa marcou a apresentação do algodão brasileiro para a alta-costura européia, e, segundo reza a lenda, dela participaram celebridades como Orson Wells e Jean-Louis Barrault.

Foi também como "crooner" da Orquestra Tabajara que Jamelão protagonizou o memorável banho na big band americana de Tommy Dorsey, em um duelo ocorrido no auditório da antiga rádio Tupy. Esse duelo, de repercussão internacional, deu à voz de Jamelão e à orquestra de Severino Araújo passaporte para as várias apresentações pela Europa.

Em 1954, ele se transferiu para a gravadora Continental, onde obteve grande êxito com as músicas "Leviana" (Zé Keti e Armando Reis), "Folha Morta" (Ari Barroso) e "Deixa de Moda" (Padeirinho). Dois anos depois, ele fez muito sucesso com a gravação da música "Exaltação à Mangueira" (Enéias Brito e Aluísio Augusto da Costa), feita para o desfile daquele ano. Em 1959, ele gravou "Ela Me Disse Assim" de Lupicínio Rodrigues e fez enorme sucesso.

Nove anos depois, em 1968, Jamelão entrou para a ala de compositores da Mangueira. Em 1972, gravou o LP "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues", totalmente dedicado à obra do compositor gaúcho. Nele o cantor é acompanhado pela Orquestra Tabajara. Daí pra frente sua fama correu o país. Tanto que alguns anos mais tarde, a Câmara Municipal de São Paulo deu a Jamelão o título de Cidadão Paulistano.

Em 1979, ele lançou o LP "Jamelão", no qual há faixas repletas de desgraças de amor. Coisas como "Coquetel de Sofrimento", "Castigo e Molambo". Mas a melhor de todas é "Imantação", na qual Jamelão, com sua voz metálica e poderosíssima, interpreta versos como o que se segue:

"O impacto dos corpos sem amor é psicose
Quando a gente não define as pretensões".

Em 1987, ele grava outro LP dedicado a Lupicínio Rodrigues intitulado "Recantando Mágoas - A Dor e Eu". Este LP também está recheado de músicas a respeito de amores incompreendidos e lancinantes saudades. Com ele, Jamelão sedimentou sua carreira de cantor de amores sofridos e de infelicidades.

Para muitos críticos, essa faceta de Jamelão o coloca como um dos maiores cantores de músicas de "dor de cotovelo", enquanto que para o próprio Jamelão elas são todas músicas de "cantor romântico".

No carnaval de 1990, Jamelão anunciou o fim da sua carreira de intérprete de escola de samba. Durante o que seria seu último desfile, Jamelão -que havia chegado ao sambódromo com febre alta- passa mal, mas consegue terminar o desfile. Na praça da apoteose, ele anunciou, pelo microfone do carro de som, sua decisão de parar de cantar em desfiles, dizendo: "Queria agradecer a toda a escola, à bateria, maravilhosa. Estou encerrando aqui meu trabalho como intérprete de samba-enredo."

Nessa época, Jamelão começava a enfrentar problemas com a pressão e, segundo sua mulher, Delice, "estava cansado". Mas, no ano seguinte, ele voltou a ativa e não para mais. Continua, até hoje, sendo o intérprete dos samba-enredo da verde e rosa. Aliás, Jamelão não é puxador de samba. Segundo ele, "puxador é quem fuma maconha ou rouba carro". Ele é intérprete.

De personalidade forte e sem papas na língua, Jamelão é, também, um homem de muitas manias. Uma delas é o costume de andar com uma caixa cheia de elásticos no bolso e alguns deles nas mãos. Conforme diz, carrega os elásticos para utilizá-los no dia em que ganhar bastante dinheiro. Porém, sabe-se que ele adquiriu essa mania do elástico depois de trabalhar muitos anos na polícia do Rio, chegando a aposentar-se naquela instituição. A sobriedade de suas interpretações mesclada com sua personalidade e suas já folclóricas manias o tornaram uma das mais importantes figuras da música popular brasileira.

Em 1994, pela primeira vez na história da Mangueira, Jamelão dividiu a interpretação de um samba-enredo, ao gravar com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia a música de sua Escola no disco com os sambas das escolas do Grupo Especial daquele carnaval. A idéia de juntar Jamelão e os baianos homenageados pela escola foi de Ivo Meirelles, então vice-presidente da Mangueira. O samba gravado é "Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu", de Davi Corrêa, Carlinhos Sena, Bira do Ponto e Paulinho Carvalho.

Em 1997, a gravadora Continental lançou a coletânea "Jamelão - A Voz do Samba", em 3 CDs, com a compilação de 33 anos de sua carreira do cantor. Nesse ano Jamelão também participou junto com Alcione, Carlinhos Vergueiro, Chico Buarque, Christina, João Nogueira, Lecy Brandão, Nelson Sargento e Velha Guarda da Mangueira da gravação do CD "Chico Buarque da Mangueira".

No carnaval de 98, Jamelão conquistou seu sexto estandarte de ouro como intérprete de samba enredo no carnaval carioca. Em 1999, foi eleito o intérprete do século do carnaval carioca por 80 jurados do Rio e de São Paulo, em um prêmio oferecido a
Lula Marques/Folha Imagem

Jamelão recebendo a Medalha da Ordem do Mérito Cultural de FHC, depois dormindo placidamente durante a cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília (DF)

profissionais, enredos e sambas. No dia 20 de fevereiro de 2001, foi internado, na Policlínica Geral do Rio de Janeiro, no Centro do Rio, com quadro de patologia vascular nas pernas. Em janeiro desse ano, foi eleito presidente de honra da Mangueira -cargo máximo da escola. Em novembro deste mesmo ano, recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural pelas mãos do presidente Fernando Henrique Cardoso e dormiu durante a cerimônia.

Para esse premiado mestre do carnaval carioca, os sambas-enredo não são mais os mesmos. Segundo ele, "hoje é difícil um samba-enredo com melodia inédita, as melodias são sequências umas das outras". Afirma que, antigamente, se fazia um samba mais cadenciado, hoje, "a bateria sai tuc-tuc-tuc. Parece até uma parada militar. Todo mundo marchando: desfile militar de samba". Essa militarização do samba, para ele, é culpa da televisão, pois hoje o tempo para acabar o desfile é determinado pela televisão. De acordo com o que fala o dono da voz da Mangueira nos carnavais cariocas, "a televisão é que manda e desmanda no samba".

Jamelão é assim: direto, sem rodeios. Certa vez, ao ser perguntado, por Antonio Chrysostomo, em entrevista para a Folha de S.Paulo, o que o levava a ter o semblante sempre carrancudo e nunca rir, respondeu: "Rir de quê?".

Essa gênio forte, que para muitos é fruto apenas de um mau humor crônico, talvez venha da vida dura de garoto pobre nos subúrbios do Rio, ou dos problemas enfrentados por Jamelão em sua carreira, tais como o preconceito racial, pois o p´roprio cantor já disse que "o artista negro sempre encontra uma barra mais pesada. No meio musical todo mundo quer o crioulo, mas para fazer figuração, para tocar pandeiro e agogô e as mulatas para sambar. Para ser estrela não serve, tem de ser branco e de preferência boa pinta. Não grito contra isso porque sei que as pessoas que hoje me desprezam amanhã vão me amar. Mas já fui deixado de lado em função de outros caras só porque eles eram brancos".

Porém uma coisa é certa: Jamelão conquistou por força própria todo o direito de ter o humor que bem quiser. Sua arte lhe deu liberdade suficiente para dormir no Palácio do Planalto, de ter as opiniões que bem enteder. É perito do samba. Sabe o que diz, e diz sempre assim, direto. Hoje, José Bispo não é mais o moleque Saruê. Hoje ele é o Jamelão, a voz da verde e rosa na avenida e fora dela. Presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira e porta-voz da sabedoria dos mestres do samba.

Fonte: Renato Roschel

Batuque na Cozinha


Batuque na Cozinha, apadrinhado por Martinho da Vila, é atualmente considerado um dos principais grupos da nova geração do samba carioca, muito conhecido por seus shows que lotam em todo Rio de Janeiro, principalmente na Lapa. O grupo traz o que há de melhor no gênero em seu repertório com músicas que vão de Noel Rosa a Zeca Pagodinho, incluindo músicas do seu primeiro cd Sorria para o Samba. Formado por Paulo Roberto, Domingos de Oliveira, Álvaro Lúcio, Dudu Oliveira, Dennis Santana, Andre Corrêa, Ari Junior.

Arlindo Cruz em Recife.



Silas de Oliveira

"Um dia, o sambista Silas de Oliveira amanhecia mais uma vez com seu amigo inseparável Mirinho, ao lado também da inseparável garrafa de cachaça. Talvez permanecessem como aqueles homens de quem Max Ernst disse que nunca saberão. Mas Silas perguntou: ‘Mirinho, você sabe o que é o infinito?’. Talvez nesse momento um outro bêbado fosse anonimamente subindo lá adiante uma ladeira da favela, não precisamente indo para o céu, embora parecesse, na luz irreal daquela manhã. Irreal como são todas as luzes das manhãs que nascem para os olhos daqueles que atravessam insones noites ébrias. O que é certo é que Silas disse: ‘Você vai andando por ali e o infinito vai te acompanhando’. Mirinho comentou envaidecido: ‘Um poeta nos mínimos detalhes, este meu amigo Silas de Oliveira’. A manhã nascia radiosa".

Silas de Oliveira de Assumpção nasceu em Madureira, subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, no dia 12 de Outubro de 1916. Desde menino freqüentou as rodas de samba, apesar da resistência do pai, que era pastor protestante e via na música uma ‘manifestação do diabo’. O pai, dono do Colégio Assumpção, ar-rumou uma vaga de professor para o filho, tão logo ele concluiu o Científico. Ele pretendia que, com a profissão, o filho abandonasse o gosto pela música.

Silas dava aulas de Português, quando começou a namorar uma das alunas, a jovem Elaine dos Santos. Nessa época também fez amizade com o jornaleiro Mano Décio da Viola, que se tornaria seu maior parceiro. Pelas mãos de Elaine e de Mano Décio, Silas sobe os morros cariocas atrás de rodas de samba. Com os dois, freqüenta também os tradicionais pagodes nas casas das ‘tias’ baianas, regados a muita bebida, comida e batucada. Seu talento como compositor começa a se revelar, ainda que timidamente. As visitas a estes locais passam a ser cada vez mais constantes e não tarda para que Silas passe a ser considerado como ‘gente da casa’ nos redutos de samba.

Em 1946, Silas de Oliveira e Mano Décio compõem o samba-enredo ‘Conferência de São Francisco’ ou ‘A Paz Universal’, defendido pelo Prazer da Serrinha, agremiação carnavalesca da qual faziam parte. ‘Forçados’ pelo decreto oficial do então Presidente da República Getúlio Vargas – que exigia que as es-colas desfilassem com temáticas nacionalistas em seus enredos –, os compositores acataram a medida e fizeram desfilar pela avenida uma escola organizada em alas com funções definidas dentro do enredo. A partir daquele ano, outras escolas aderiram às idéias do Prazer da Serrinha, moldando-se ao novo estilo de desfile por ela constituído.

Porém, alguns integrantes do Prazer da Serrinha não aceitaram essas inovações, resultando daí a dissidên-cia de vários componentes – que culminaria com a fundação da Império Serrano, em 1947. Silas de Oli-veira integra a nova escola desde seu primeiro desfile, do qual se sagrou campeão no carnaval de 1948. No ano seguinte, Mano Décio também aderiu à nova agremiação. Entre 1949 e 1951 o samba vitorioso do Império Serrano trouxe a assinatura de Silas, de Mano Décio ou dos dois. Em 1955 e 1956, mais duas vi-tórias da dupla na escolha do samba da escola e do Império Serrano na avenida: ‘Exaltação a Caxias’ e ‘O Sonhador de Esmeraldas’.

Silas dedicou 28 anos de sua vida ao Império Serrano e nesse período fez 16 sambas de enredo para a es-cola, dos quais 14 foram defendidos no desfile oficial. Quando o amigo Mano Décio foi para a Portela, a dupla se desfez. Mas Silas continuou compondo para a Verde-e-Branco de Madureira, muitos dos quais tornaram-se clássicos do gênero, como ‘Aquarela do Brasil’ (1964), ‘Os Cinco Bailes da História do Rio’ – em parceria com Dona Ivone Lara e Bacalhau (1965), ‘Glórias e Graças da Bahia’ – com Joacir Santana (1966) e ‘Pernambuco, Leão do Norte’, com o qual enfrentou – e venceu – o antigo parceiro Mano Décio da Viola, que retornava à escola, em 1968. A última parceria dos dois grandes sambistas foi em 1969 com ‘Heróis da Liberdade’, num ano em que o jeito de fazer samba-enredo passava por grandes modificações, sobretudo no andamento acelerado, lembrando marcha militar.

Mano Décio e Silas de Oliveira não se adaptaram a essa nova postura, pois acreditavam que essa mudança era responsável pelo empobrecimento do samba-enredo. Silas ainda tentou adaptar-se aos novos tempos, mas sua influência no Império Serrano já não era mais a mesma. Nos últimos anos de vida, Silas deixou de se envolver com os desfiles de carnaval, limitando-se apenas a freqüentar rodas de samba onde, na sua concepção, o ambiente era mais tranqüilo.

No dia 20 de maio de 1972, Silas de Oliveira foi à uma roda de samba, pensando arranjar dinheiro para matricular uma de suas filhas no vestibular. No momento em cantava ‘Os Cinco Bailes do Rio’, sofreu um enfarto fulminante. Morreu no terreiro, onde passou a maior parte de sua vida. Nos deixou obras-primas como ‘Meu Drama’ (gravada por Cartola como ‘Senhora Tentação’), ‘Apoteose ao Samba’ (com Mano Décio, imortalizada por Jamelão) e ‘Aquarelas do Brasil’ (que recebeu inúmeras gravações, destacando-se a de Elza Soares e a de Martinho da Vila).

Fonte: Samba & Choro

Jorginho do Império


Jorginho nasceu dia de Carnaval, começou sua carreira como músico e se tornou discípulo de Martinho da Vila. Já gravou 13 discos, e varias coletâneas. Fez sucesso com “Água no Feijão”, “Na Beira do Mar” e vários outros. Viajou por vários países como Estados Unidos, Espanha, Itália, Argentina e Japão, sempre sendo prestigiado e garantindo casa cheia.

Jorginho do Império, nome que recebeu por ser filho de um dos fundadores da Escola de Samba Império Serrano “Mano Décio da Viola”, o qual nos presenteou no mundo do samba com sambas que são verdadeiros hinos como “Heróis da Liberdade”, “Exaltação a Tiradentes” (gravado até mesmo por Elis Regina) e muitos outros. Já fez parceria com grandes nomes de nossa MPB como os saudosos Jackson do Pandeiro, Elizete Cardoso, etc... Puxador de samba enredo da escola de Samba Império Serrano, do grupo especial: (1996 – BMG) “Veras que um Filho seu não Foge a Luta”. (1997 – BMG). “O Mundo dos Sonhos de Beto Carreiro” (1999 – BMG) “Uma Rua Chamada Brasil”.

Foi eleito cidadão do Samba em 1.971, e aclamado em 1.995. Esteve esquecido pela mídia mais continuou lutando pelo verdadeiro samba, fazendo shows por todo o Brasil com seu grupo de músicos e mulatas.

Por ser um verdadeiro cidadão do samba sofre criticas pela mídia e gravadoras por lutar por um só ideal “Nosso Verdadeiro Samba”, e é com este espírito que está gravando um novo trabalho ao vivo com o título de “Pra Quem Gosta de Samba” produzido por Roberto Lopes e Canário o qual promete surpresas.

Morre ratinho.



O compositor e sambista Alcino Correira Ferreira, o Ratinho, de 62 anos, morreu no início da tarde deste domingo no Hospital municipal Salgado Filho. Ele estava internado na unidade desde a manhã de sábado. A causa da morte não foi divulgada pela Secretaria municipal de Saúde.

Cantor, letrista, poeta e cronista, o português Ratinho veio para o Brasil aos 4 anos de idade para morar com o avô em Pilares, subúrbio do Rio. Pela Caprichosos, escola do bairro, foi 7 vezes campeão de samba-enredo, incluindo um Estandarte de Ouro em 1978 com “Festa da uva, no Rio Grande do Sul”.

Entre os sucessos estão "Vai Vadiar" e "Coração em desalinho", parcerias com Monarco, gravadas por Zeca Pagodinho. Com o cantor, tem parcerias ainda em músicas como “A vaca”, “Luz de Ogum” e "Falsa alegria". Também compôs com outros grandes nomes, como Nelson Cavaquinho, tendo sido gravado por Jorge Aragão, Beth Carvalho e Grupo Fundo de Quintal.

Em 2004, criou o espaço Toca do Rato em sua casa no bairro de Todos os Santos, também subúrbio. No lugar, recebia vários convidados para uma roda de samba acompanhada de uma almoço feito por sua esposa Denise.

Seu último trabalho foi o CD "O rato sai da toca", lançado este ano. O álbum reúne várias de suas composições interpretadas pelo própiro, além de algumas de suas parcerias com outros compositores.

O também compsitor Aldir Blanc escreveu no encarte do CD: "São muitos os bons sambistas e raros aqueles que transmitem com simplicidade e beleza uma espécie de sabedoria ancestral. Não por acaso, Ratinho é um dos parceiros favoritos de Zeca Pagodinho. Sua benção, Ratinho! Sambista único (...), um craque como há muito não se via".

Fonte: Jornal Extra On Line