Djalma Sabiá



"Ele é a história viva do Salgueiro. Além de possuir registros, como o primeiro estatuto dessa escola de samba, sabe de cor fatos ocorridos e até mesmo as datas. Djalma de Oliveira Costa, o Djalma Sabiá, guarda com carinho todas as reportagens e fotografias da agremiação e ainda placas, diplomas, mensagens e premiações conquistadas por ele. O último, um Estandarte de Ouro como Personalidade do Samba (2003), enfeita a parede do quartinho onde vive, numa vila na Rua Conde de Bonfim, próximo à Praça Saens Pena. Aliás, parede é o que falta. Tudo está tomado por fotos e recortes de jornais e revistas.

Com a autoridade de quem acompanhou cada passo, desde o nascimento da escola, ele exibe e faz questão de explicar até os detalhes das fotografias, o ano, quem era presidente naquela época, quem fez aquela viagem, o que aconteceu naquele dia. O Salgueiro não era um hobby, fazia parte da sua vida pessoal. Até hoje faz, mesmo sem estar envolvido diretamente com a escola. "Isso aqui tudo vai pro túmulo comigo! Minha filha outro dia jogou algumas coisas fora. Fiquei revoltado com ela".

O envolvimento com samba começou cedo. Em 1936, a mãe de Sabiá, Alzira de Oliveira Costa, era porta bandeira da Unidos da Tijuca, primeira escola do bairro. Djalma, obviamente, entrou para esta agremiação. Mas, ao se apaixonar por Jurema da Silva, a Diva, porta bandeira da Depois Eu Digo - com quem se casou em 1946 - trocou de lado. Com a fusão das agremiações do morro do Salgueiro, não teve mais jeito: tornou-se salgueirense. Sua esposa foi pastora e dona de ala na vermelho e branco da Tijuca enquanto ele compunha belíssimos sambas, entre eles "Chico Rei", de 1964, até hoje considerado um dos melhores. O cantor e compositor Martinho da Vila, por exemplo, gosta tanto desta obra que chegou a regravá-la e, em certo show, anunciou a presença de Sabiá. Em seguida, em vez de cantar, disse o samba, cada frase, pausadamente.

Sorrindo, Sabiá lembra também da viagem a Cuba em 1959, onde o Salgueiro participou do evento em homenagem a Fidel Castro: "Os cubanos adoraram a escola. Falavam assim: 'Baila, negrito!'". Pelas fotografias que exibe é possível perceber que, mesmo aos 78 anos, Sabiá não perdeu o estilo dos sambistas daquela época. Os gestos e a linguagem utilizados por ele permitem visualizar como se comportava o legítimo malandro de outrora: "A gente já descia o morro na ginga!".

Apesar de estar triste com as transformações ocorridas no samba, Sabiá diz guardar ótimas recordações, entre elas, ter conhecido Argentina, Cuba, Uruguai e alguns estados do Brasil pelo Salgueiro. É feliz também por ter conversado pessoalmente com pessoas ilustres como Juscelino Kubitschek de Oliveira e Carlos Lacerda, de quem conseguiu um terreno: "Em vão pois a diretoria da escola não lutou para efetivar o processo", relata.

Saudoso, se emociona ao lembrar do passado e exibe a ata com o nome de todos os fundadores da escola - material recolhido na antiga sede, sob uma geladeira: "Naquela época não existia ambição. Nem dos dirigentes. Ambição maior era levantar um título". Por si só, Sabiá é um arquivo."

Trecho da monografia de
do curso de Jornalismo, em 2003.

Luiz Carlos da Vila



Luiz Carlos da Vila, completaria hoje, dia 21 de Julho, 62 anos.


Minhas Madrugadas (Paulinho da Viola / Candeia)

Meu Cumpadre



Meu Cumpadre

(Élcio do Pagode / Dido do Cavaco)

Meu cumpadre
Agente tem que respeitar
A força que quebra o quebranto
Que traz o encanto
E cerca o mau olhar
Por favor não vá agora
Deixa a madrugada passar
Se lembra daquele amigo
Que falou contigo
Pra não abusar
E que quando chegar no terreiro
Só sair do samba quando clarear

É que os mistérios da vida
Tem que correr gira para desvendar
Cada um fazendo sua parte
Mais cedo ou mais tarde
Tudo vai mudar
Cada um fazendo sua parte
Mais cedo ou mais tarde
Tudo vai mudar

O bem que eu quero pra mim
Quero pra você também
Desejo paz e amor
A todos que vão e que vem
Sei que ninguém é perfeito
Mais tendo respeito
Já começa bem
Sei que ninguém é perfeito
Mais tendo respeito
Já começa bem
(Salve o Zé)



Faixa extraída do disco:
Arlindo Cruz_Batuques e Romances (2011)

Paulinho Mocidade



Dando continuidade á Seção no sambaderaiz.net Vozes do Carnaval, seção esta aonde procurarei divulgar os intérpretes (puxadores) de sambas-enredo, mostrarei o trabalho (biografia) de Paulinho Mocidade. Paulinho Mocidade é cantor, compositor e músico profissional com registro na Ordem dos Músicos do Brasil. A inspiração musical surgiu em casa. O pai, João Alves de Jesus, natural de Petrolina-PE, foi clarinetista da banda da polícia militar do Estado do Rio de Janeiro.Aos 19 anos, Paulinho Alves, como era chamado, ingressou na ala de compositores da Mocidade Independente de Padre Miguel, sendo na época o compositor mais jovem da agremiação.

Na ocasião atuava paralelamente nas funções de Fuzileiro Naval da Marinha do Brasil e jogador de futebol, com passagens pelo Bangu, América-RJ e Campo Grande. Chegou a receber propostas de clubes como Fluminense-RJ e Vera Cruz-MEX, no entanto seguiu a carreira musical. Na Mocidade conquistou (como compositor) três sambas-enredo: “Como era verde o meu Xingu” (1983); “Elis um trem de emoções” (1989) e “Sonhar não custa nada, ou quase nada…” (1992) - obra que se tornou um dos principais sambas da agremiação e do carnaval do Rio de Janeiro.
Em 1990 assumiu o posto de intéprete oficial da Mocidade sendo campeão no mesmo ano e bicampeão em 1991. Na mesma época foi contratado pela Rede Globo de Televisão e se tornou o primeiro cantor da vinheta “Globeleza”. Tem como “grito de guerra”: “Chegou a hoooooora!!!!”.
Foi também o cantor oficial da Unidos da Tijuca, Império da Tijuca, Águia de Ouro-SP, Aliança-SC, Imperatriz Leopoldinense (onde foi tricampeão com a agremiação) e recebeu do radialista Miro Ribeiro o apelido de “Incendiário da Sapucaí”, pela animação e garra na interpretação dos sambas.

Em 2009 retornou à Imperatriz, onde foi escolhido para cantar o samba-enredo que fazia menção ao cinqüentenário da escola do bairro de Ramos. Em 2010 foi contratado para ser o cantor da “Embaixadores do Ritmo”, do carnaval de Porto Alegre - no ano em que a agremiação festejava 60 anos de fundação. Em 2011 foi também o intérprete da escola do sul do país.
É compositor, sendo gravado por nomes como Emílio Santiago, Dona Ivone Lara, Seu Jorge, Ana Carolina, Dudu Nobre, Dorina, Marcelinho Moreira, entre outros.

O cantor também tem no currículo as medalhas Pedro Ernesto e Tiradentes, pelos benefícios em prol da cultura brasileira. Esteve em países da América do Sul, América do Norte e Europa levando o samba carioca. Atualmente é artista do Rioscenarium - principal casa de shows da cidade, localizada na Lapa - onde realiza temporada trimestral. Foi também um dos 10 finalistas do 5º Concurso Nacional de Marchinhas da Fundição Progresso, que teve 1.200 obras inscritas em todo Brasil.

Nas parcerias musicais assinou obras com Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Wilson das Neves, Franco, Durval Ferreira, Claudinho Guimarães, Paulinho Rezende e Jurandir Bringela (com quem compôs “Se o caminho é meu” - sucesso na voz de Dona Ivone Lara e regravada por Dorina, Seu Jorge e Ana Carolina.

Arlindo Cruz lança CD em parceria com músico Sombrinha.


Arlindo Cruz está tinindo em alta definição. Depois de apresentar o banjo à MTV e virar estrela da TV Globo em vinhetas e nos batuques do Esquenta, o sambista mais produtivo do mundo – a caminho dos 600 sambas gravados – aparece na foto 14 quilos mais magro. Enquanto espera o inverno passar para fazer hidroginástica, anuncia a volta da célebre parceria com Sombrinha e apresenta a um público que não conhece mais fronteiras o CD Batuques e Romances (Sony Music), ‘puro suco’ dos terreiros que o criaram.

“Agora a criança fala na rua: ‘Olha aquele moço do ‘plim-plim’. A responsabilidade aumentou. Não podemos mais falar palavrão”, brinca Arlindo, ciente de que hoje é dele a tarefa de levar tambores e sambas de qualidade aos tocadores de MP3.

Adornos como o machado de Xangô e o ‘abebé’, com a imagem do peixe para Iemanjá, saltam do colar cada vez mais pesado de amuletos para faixas do disco como o afoxé Oferendas, e o jongo Mãe.

“O disco mistura a zorra dos anos 70 e 80, o Cacique (de Ramos), muito tambor e palma de mão, minhas rodas, candomblés e quadras, ao romantismo dos sucessos que tocam no rádio”, define.

Além da participação de Zeca Pagodinho em Meu Poeta – com 36 sambas de Arlindo gravados, Zeca ainda perde para Beth Carvalho, que tem 38 -, o disco traz um dueto com Ed Motta, Bancando o Durão, no trânsito livre do sambista em todas as trilhas.

“Foi uma tarde memorável no quintal do Leandro (Sapucahy, produtor do CD). Eu, Zeca, Ed Motta, a Regina Casé e o D2, que estava ‘à deriva’ e apareceu. Rimos muito, foi só farra, com churrasco e cerveja. O Ed estava sem comer carne e assamos um franguinho.”

Festanças à parte, aos 52 anos Arlindo encara regime para manter o pique: “O feijão não tem mais costela e paio, acabou a farofa e a massa, mas deixei a cerveja de fora. Já que não como, bebo”. O popstar do samba capricha na estampa sem perder a essência.

“Não sabemos como ficarão as comunidades”
A favela e a polícia aparecem nos sambas Meu Nome é Favela e Sargento, e Arlindo comenta o processo de pacificação: “Do jeito que estava não dava para continuar, mas temos que esperar. Não há prisões, e não sabemos como ficarão as comunidades. Tenho que voltar a ter tempo de sentar na tendinha, escrever uma poesia, beber uma cerveja, sentir o clima”, diz. E afirma, saudoso: “Minha essência é a Piedade, o domingo com a criançada, a pipa, os doces de Cosme e Damião”.

Efson


Naceu no Morro da Caixa D'Água, no Largo do Tanque, bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Anos depois a família mudou-se para o Morro dos Macacos, em Vila Isabel. O pai, Seu Eduardo Ferreira, foi flautista amador. Seu tio, por parte de mãe, Rosário foi compositor, passista e um dos fundadores da Escola de Samba Unidos de Vila Isabe. O outro tio Tião de Nada, também foi passista da mesma escola, além de tocar vários instrumentos na bateria.

Após os dez anos de idade participou do coral e da banda da Escola de Agrícola Artur Bernardes, em Viçosa (MG), banda na qual também tocava trombone. Na década de 1960, a convite do Maestro Pedrote, atuou como cronner em boates do Rio de Janeiro. Por essa época, participou de programas de calouros, tais como "A Buzina do Chacrinha". Na década de 1970 passou a freqüentar o Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos, para o qual compôs, em parceria com Odibar, o samba-empolgação "Hoje eu vou querer". Neste mesma época, a convite de Natal da Portela, ingressou na Ala de Compositores da escola.

Na década de 1970, a convite de Zuzuca do Salgueiro, participou do LP "A Fina Flor do Partido Alto" ao lado de vários artistas novos, entre os quais Neguinho da Beija-Flor. Em 1983, sua composição "Firme e forte" (c/ Nei Lopes) foi gravada por Beth Carvalho no LP "Suor no rosto".
Em 1986, Alcione gravou pela RCA Victor o disco "Fruto e raiz", que incluiu "Bololô" (c/ Paulo Vizinho e Nei Lopes). No ano seguinte, pela gravadora Philips, Agepê interpretou "Água de poço" (c/ Odibar). Beth Carvalho regravou "Firme e forte", no LP "Ao vivo", e Marquinhos Satã interpretou "Quás, quás, quás (pinico)", em disco lançado pela gravadora Ariola.

No ano de 1992, em seu LP "Pulsa coração", Alcione incluiu "Amor rola na cama" (c/ Odibar).
Sua composição "Hoje é dia de festa" deu título ao disco de Zeca Pagodinho em 1997, lançado pela PolyGram. Em 1999, Leci Brandão interpretou "Jeito cigano", de Efson em parceria com Odibar. No ano seguinte, Zeca Pagodinho, no CD "Água da minha sede, interpretou" a composição "Cabocla Jurema", parceria com Nei Lopes. No ano de 2001, participou do CD coletânea "Quintal do Pagodinho", disco produzido por Rildo Hora e idealizado por Zeca Pagodinho. O CD, lançado pela Universal Music, foi gravado ao vivo no sítio de Zeca Pagodinho em Xerém, no Rio de Janeiro e contou com a participação de vários compositores, muitos deles gravados por Zeca Pagodinho, entre eles: Barberinho do Jacarezinho, Luiz Grande, Dunga, Zé Roberto, Maurição, Carlos Roberto, Octacílio da Mangueira, Jorge Macarrão, Luizinho Toblow, Leandro Dimenor, Rixxah, Alamir, Bidubi e Wilson das Neves. Neste disco, Efson interpretou "Carreiro sanfoneiro", parceria com Nei Lopes.

No ano de 2003 Beth Carvalho, acompanhada do conjunto Quinteto em Branco e Preto, gravou o CD "Pagode de mesa 2 ao vivo", disco no qual incluiu de sua autoria "Firme e forte", em parceria com Nei Lopes. Em 2008 lançou o CD "Negro sim senhor" no qual gravou 15 composições, entre as quais 11 delas feitas em parceria com Odibar: "Brilha pra mim", "Meu tantan", "Acidental", "Bem que o Tom dizia", "Ligeira impressão", "Jeito cigano", "Caçamba", "Forró tem coisa", "Pop sertão", "Upa lá lá" e "Pra rezar". As outras composições incluídas no discos foram "Buxixo em Madureria" (c/ Ana Maria), "Hoje é dia de festa", "Essa é do peru" e a faixa-título "Negro sim senhor", em parceria com Marquinhos PQD e Franco. O disco contou com arranjos de Paulão Sete Cordas (violão de sete cordas), Cláudio Jorge (violão de seis cordas), Carlinho Sete Cordas (violão de sete cordas) e Alceu Maia (cavaco), além de participações de músicos como Roberto Marques (trombone), Paulinho Galeto (cavaco), Eduardo Neves e Dirceu Leite (saxes) e Darcy de Paula.

Foi pratista da escola de samba Renascer de Jacarepaguá, antigo bloco carnavalesco Bafo do Bode do qual foi um dos fundadores. Entre seus vários sucessos estão "Hoje eu vou querer", com o qual o Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos desfilou e "Caçamba" (c/ Odibar), interpretada pelo grupo Molejo. Entre seus interpretes também consta Jorge Aragão na composição "Brilha pra mim", em parceria com Odibar. Teve sua composição "Quem passa vai parar" (c/ Carlito Cavalcanti e Marquinhos PQD) gravada por Zeca Pagodinho no disco "Vida da minha vida". Em 2011 apresentou-se no Ponto de Cultura Engenho, Arte e Folia, no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Este evento também contou com a participação do bloco Loucura Suburbana (criado em 2001 e entre cujos brincantes fazem parte pacientes psiquiátricos do Instituto Municipal Nise da Sllveira).

Marquinhos PQD



No ano de 1983, o grupo Fundo de Quintal interpretou de sua autoria "Fases do amor", em parceria com Chiquinho e Fernando Piolho. No ano seguinte, Beth Carvalho interpretou "Coração feliz" (c/ Adilson Bispo e Gerson do Vale). A música deu nome ao disco da cantora, que foi lançado pela RCA Victor.

No ano de 1987, outra composição de sua autoria, em parceria com Franco e Arlindo Cruz, "Luz do repente", deu nome ao disco de Jovelina Pérola Negra, lançado pela gravadora RGE. Neste mesmo ano, o grupo Fundo de Quintal gravou de sua autoria "Já foi uma família", em parceria com Franco e Arlindo Cruz. No ano seguinte, em 1988, Beth Carvalho gravou "A sete chaves" (c/ Franco e Arlindo Cruz), em seu disco "Alma do Brasil".

Em 1989, Reinaldo interpretou "Pra ser minha musa" (c/ Chiquinho e Arlindo Cruz) e Beth Carvalho gravou "Sonhando eu sou feliz", em parceria com Franco e Arlindo Cruz, no LP "Saudades da Guanabara". Neste mesmo ano, sua composição "Pagode de família" (c/ Fernando de Lima e Franco) deu título ao disco do grupo Sampa. Ainda neste ano, Fundo de Quintal interpretou de sua autoria "Se você me der a mão" (Chiquinho e Arlindo Cruz) e "Não valeu", parceria com Franco e Arlindo Cruz. No ano seguinte, em 1990, Bezerra da Silva incluiu "Se não avisar o bicho pega" (c/ Marcinho e Jorge Carioca) no disco "Eu não sou santo", pela gravadora RCA.

No ano de 1991, no disco "Intérprete", Beth Carvalho incluiu "Olhos da paixão" (c/ Sombra e Sombrinha). Neste mesmo ano, a cantora gravou ao vivo o disco "Ao vivo no Olympia", pela Som Livre. Neste disco, incluiu várias composições de sua autoria: "Sonhando sou feliz", "Salve a natureza" (c/ Gígio e Bebeto di São João), e "A sete chaves".

Em 1996, sua composição "Deixa clarear" (c/ Sombrinha e Arlindo Cruz) deu título ao disco de Zeca Pagodinho, lançado pela PolyGram.

Em 1999, Luizinho SP, no CD "Departamento do pagode", pela gravadora Velas, gravou de sua autoria "Me deixa", em parceria com Serginho Procópio e Acyr Marques.

Em 2000, Zeca Pagodinho interpretou em seu disco "Ao vivo", a composição " Luz do repente", de sua autoria. Ainda neste ano, o samba-enredo "Verde, amarelo, azul-anil, colorem o Brasil do ano 2000", em parceria com Dico da Viola, Jefinho e Marquinho Índio, foi cantado na avenida, representando a Mocidade Independente de Padre Miguel.

No ano de 2001, sua composição "É sempre assim", em parceria com Arlindo Cruz e Sombrinha, foi gravada no CD "Ao Vivo, de Arlindo Cruz & Sombrinha". Neste mesmo ano, Jorge Aragão no CD "Todas", pela gravadora Indie Records, incluiu de sua autoria "Abuso de poder", parceria com Carlito Cavalcanti.

Em 2003, o grupo Revelação, no disco "Samba de raiz 3", regravou a composição "Luz do repente".

O mendigo Coral é um amigão de Zeca Pagodinho.


Todo mundo quer ser amigo de Zeca Pagodinho, dos mais ricos aos mais humildes. Prestigiado por celebridades em suas festas e shows, é com um mendigo chamado Coral que o cantor passa as suas tardes na praia da Barra. Zeca e Coral bebem juntos em um quiosque no Posto 5 e passam horas papeando. Coral já conhece, inclusive, a família do cantor, e brinca com Maria Eduarda e Noah, filha e neto de Zeca.

Mas o pagodeiro não é só amigo de copo, não. Além de dar aquela forcinha para que o mendigo se alimente bem, Zeca fica de olho na saúde do companheiro. Recentemente, percebeu que Coral estava doente e o levou ao hospital. Na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, moradores e frequentadores da praia na altura do Posto 5 conhecem a amizade entre o mendigo Coral e Zeca Pagodinho. E o cantor costuma dar uma força ao amigo, principalmente nesta época de frio.

- Zeca dá uma ajudinha a ele, quando o tempo está frio e chuvoso. Zeca dá dinheiro para Coral passar as noites em uma pensão no Centro do Rio - conta José da Silva, balconista de um quiosque da região. Segundo moradores, Coral passou a viver nas ruas por causa de uma desilusão amorosa. Há 30 anos atrás, triste com a separação da mulher, ele deixou Minas Gerais para vir trabalhar nas praias do Rio. Desde então, dorme atrás de quiosques e se protege do frio com tampas de isopor.

Arlindo Cruz lança CD entoando hits e inéditas.



Pagode romântico tem. Samba de raiz tem também. Jongo e afoxé não faltam. Quem for hoje à Fundição Progresso, na Lapa, a partir das 23h, vai encontrar um polivalente Arlindo Cruz no lançamento do CD “Batuques e romances”. Até os tempos em que ele morou no Morro do Fubá serão relembrados na música “Meu nome é favela”. Era uma época braba, aumentava o aluguel e a gente tinha que se mudar - lembra ele, que do período das vacas magras, guarda a amizade com Zeca Pagodinho, com quem hoje cantará “Meu poeta”: - Essa letra dele é irretocável.

Cacique de Ramos



No começo dos anos 60, a atenção dos intelectuais — pelo menos de uma parte deles, aquela comprometida com as preocupações mais radicais de mudança social — se volta para as chamadas camadas populares — o "povo", como se dizia um tanto ingenuamente na época. O intelectual CPC (dos Centros Populares de Cultura/UNE) — representante da vanguarda intelectual daquela hora — era, exatamente, "o intelectual que optou por ser povo". Falava-se sobre o "povo", discutia-se a "cultura popular revolucionária", tentava-se "conscientizar" este mesmo povo etc. etc. E o povo? O que fazia efetivamente enquanto se falava dele com tanta intensidade e paixão? Por volta da mesma época, em Olaria, subúrbio carioca da Leopoldina, grupos de jovens com idades muito próximas daquelas dos jovens intelectuais CPC — todos no começo dos 20 anos — e representantes por excelência das "camadas populares" formulavam um projeto cultural — começam a organizar o Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos.

Sem querer insistir na crítica do populismo, já feita e refeita tantas vezes, a reflexão em torno da história do Cacique, com toda uma passagem obrigatória pela dinâmica do mundo do samba carioca, me pareceu imediatamente uma ocasião privilegiada para repensar teoricamente o universo da assim chamada cultura popular — a natureza concreta dos sujeitos sociais, das situações ou dos fenômenos recobertos por esta categoria, suas relações com o mercado, com a cultura de massa, enfim, seu movimento efetivo, tentando fugir definitivamente do tom "ideológico" que sempre norteou a discussão neste terreno. Me parecia haver chegado a hora de se pensar esta parcela do enorme caldeirão cultural urbano com a mesma "naturalidade" com que se lida com outros segmentos menos idealizados. Submetida às mesmas regras da produção cultural, vivendo no mesmo tempo social, tendo que lidar com questões do dia-a-dia da sociedade como um todo. Enfim, o "povo" não seria nem melhor nem pior do que qualquer outro segmento social.

Foi com essas preocupações em mente que comecei a me dedicar à análise desse universo e do cotidiano de seus personagens. Partindo da busca de reconstrução da história/memória do Cacique de Ramos, passando pela reflexão em torno do carnaval e do samba enquanto fenômenos culturais e chegando a uma análise do "movimento de pagode" que marcou o samba carioca ao longo da década de 80.

Encontro de famílias, o Cacique se torna ele mesmo, uma "grande família" — uma enorme e eficaz rede de relações de troca e de ajuda mútua que veio, ano a ano, se concentrando em torno do núcleo inicial que funda o Bloco. A todo o momento, podemos nos deparar com antigos e novos participantes que afirmam com insistência: "Mas o Cacique é a minha família!".

Agremiação carnavalesca, reduto de criação musical, exemplo de organização popular, centro de festas e de afirmação de tradições de várias ordens, importante elo com o mercado de trabalho do músico profissional, o Cacique de Ramos — um dos mais tradicionais blocos de carnaval da cidade — tematiza a figura do índio (no seu nome, nas suas idéias e nas fantasias e alegorias utilizadas no desfile durante o carnaval) e afirma o samba enquanto elemento de identidade. Referindo-se ao crescimento rápido e avassalador que o Cacique obteve, seu Presidente (Bira) coloca a seguinte questão: “Você já viu índio catequizar? Pois o Cacique catequizou...”.

Atualmente, a dinâmica do Cacique de Ramos se configura da seguinte maneira: de um lado, temos o bloco que desfila durante os três dias de carnaval com grande número de foliões, sendo o desfile precedido de ensaios da bateria, da venda de fantasias e de uma rápida mobilização da diretoria tendo em vista o preparo de carros alegóricos e de toda uma infraestrutura exigida pelo carnaval; de outro, temos o espaço da quadra, sede da agremiação e local de encontro de seus membros permanentes e de sua população flutuante e de realização de festas, de jogos de futebol e, principalmente, de pagodes — reunião de sambistas para fazer samba — que vão se espalhar por todos os subúrbios cariocas durante os anos 80 (chegando até a “zona sul”) e que vão ter, na quadra do Cacique, um dos epicentros do que acabou sendo qualificado como o “movimento de pagode” com forte presença na imprensa, na indústria fonográfica e nas rádios. Além disso, o Cacique tem hoje o grupo musical Fundo de Quintal, cujo sucesso se traduz nos seus shows concorridíssimos, no enorme número de discos gravados e vendidos, na presença constante em programas musicais nas televisões, bem como nas “tournées” internacionais, sobretudo no Japão, onde o grupo tem vários discos laser gravados e para onde é convidado anualmente.

Ao longo de sua história, nestes quase 30 anos que já nos separam de sua criação, foram tentadas várias formas de organização institucional para o Cacique, além do bloco. Clube social, organizador de festas e eventos, enfim, diferentes formas de fazer valer e crescer a hegemonia cultural de um grupo ou de determinados grupos sociais urbanos da cidade do Rio de Janeiro.

Por mais importante que seja o bloco e por maior que seja sua força no carnaval — com seus foliões fantasiados de índio avançando pela avenida — é o dia-a-dia da quadra (aliado a uma enorme sabedoria e habilidade no uso do potencial deste espaço) que parece garantir a perpetuação, a reafirmação constante e crescente dos valores e das tradições mais fundamentais do grupo ou grupos que o Cacique representa.

Por outro lado, a história mesma da formação inicial do bloco com a aglutinação de todo um capital cultural negro/popular/ urbano/musical/religioso... também nos dá pistas importantes para a compreensão do vigor de organização, do vigor institucional que o Cacique demonstra no sentido da afirmação de uma hegemonia.

Num subúrbio carioca da Leopoldina, no começo da década de 60, um povo sai em busca do seu território. Em torno da idéia e da figura do índio, inspirados no exemplo dos grandes sambistas e de pequenas e grandes agremiações, grupos de amigos e de famílias representativas de populações negras do Rio de Janeiro formam um bloco de carnaval. Era o começo de uma história de muito sucesso. Sucesso na “avenida”, na música popular e no dia-a-dia da quadra. Um sucesso que, antes de mais nada, veio logo. Em três ou quatro anos, os Caciques de Ramos catequizavam o carnaval carioca.

E mais: em pouco tempo, fora do Rio, proliferam os “blocos de índio”. Na Bahia, p.ex., surge, por volta de 66, o Bloco do Cacique do Garcia. Logo depois, por volta de 68, é a vez do Apaches do Tororó. Daí em diante, são tantos outros que vão surgindo a cada ano: Tupys, Xavantes, Comanches, Guaranys, Moicanos, Tamoios, Pena Branca da Liberdade, Sioux, Filhos do Sol, todos tematizando e atualizando esse índio plural, articulado com a indústria cultural e com os rituais religiosos da umbanda e do candomblé.

Quem eram e quem são esses “índios urbanos”? No discurso de seus dirigentes, a defesa dos povos indígenas do Brasil — explorados, oprimidos, expulsos da terra e lutando por sua sobrevivência física e cultural, reivindicando, com eles, seu território. Na fantasia e nas alegorias, o cruzamento entre a imagem do índio norte-americano (o apache) e a do maravilhoso selvagem coberto de plumas, desenhos e cores, veiculadas pela indústria cultural. Na tradição de muitos de seus membros e fundadores, o caboclo — personagem altivo, orgulhoso, indomável, senhor das matas — incorporação da figura do índio no universo das religiões afro-brasileiras. É tudo isso que o Cacique de Ramos representa e é a partir daí que se pode pensar sua enorme força de expansão. E mais: é desse entrecruzamento e da presença simultânea de todos estes elementos díspares que ele ganha uma riqueza marcadamente urbana e sedutora.

Assim, por volta de 61 / 62, o bloco estava fundado. Seus fundadores, na época em torno dos 20 e poucos anos, moravam praticamente todos nos subúrbios da Leopoldina como Ramos, Olaria, Bonsucesso e tinham, muitos deles, nomes de índio (Ubiraci, Ubirani, Ubirajara, Aimoré, Maíra etc.), os quais lhe haviam sido dados por motivos religiosos.

Apesar da presença de várias famílias e jovens na fundação do bloco, há uma aglutinação — não sem algum conflito — em torno de dois irmãos (Bira e Ubirani) — sendo um deles, desde o primeiro momento, escolhido presidente enquanto o outro, depois de ocupar cargos distintos na hierarquia da organização, passava a ser vice-presidente — filhos de pais extremamente representativos do mundo do samba e do mundo das religiões afro-brasileiras (umbanda/ candomblé). Assim, o pai é um sambista, nascido no Estácio (bairro tradicionalmente boêmio e representativo da música carioca e do samba em especial), amigo próximo de todos os grandes nomes que fundaram e desenvolveram o samba; enquanto a mãe é uma importante e prestigiada mãe de santo formada na tradição da umbanda (com passagem no candomblé) — aos 16 anos, já iniciada na vida religiosa, ela vai para o terreiro da Mãe Menininha do Gantois, na Bahia, onde completa sua formação religiosa.

Como se pode então verificar, é deste encontro de tradições musicais do samba com as tradições das religiões afro-brasileiras que surge o Cacique de Ramos. Embora o caso desta família me pareça exemplar, num certo sentido, estas são as matrizes que constituem o capital cultural também de outras famílias e jovens que se aglutinaram em torno do bloco. É como se na história da formação do Cacique se repetisse a história mesma da formação do samba.

O “movimento de pagode”, por sua vez, também evidencia a mesma riqueza e o mesmo entrecruzamento de elementos, pelo menos à primeira vista, bastante díspares. Ao fazer a ponte entre o “fundo de quintal” dos subúrbios cariocas e o mundo da mídia, marcado pela presença violenta das leis de mercado e dos grandes interesses, este “movimento” aparece, imediatamente, como algo mais que um simples movimento musical. E talvez não seja à toa que o Cacique, mais uma vez, tenha vivido com o pagode um novo momento de sucesso. E de sucesso também de mercado, diga-se de passagem. Devidamente lastreado pela crítica e pelo público.

Tendo como base a quadra do Cacique, ou melhor, o pagode que ali acontece nas noites de quarta-feira, desenvolve-se toda uma rede de pagodes e pagodeiros que vão não apenas enriquecer o movimento mas, fundamentalmente, constituir um de seus filões mais fortes e sonoros. Nomes como Jorge Aragão, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho e tantos outros são parte desta rede.

É um samba de fundo de quintal, de rodas de samba surgidas no cotidiano dos subúrbios mas que, muito rapidamente, ganhou os meios de comunicação de massa e as paradas de sucesso. Ao mesmo tempo, a palavra pagode vai se tornando um sinônimo de samba e chega-se a falar, na imprensa, de uma “geração do pagode”. Embora enquanto “reunião informal de sambistas para fazer samba” o pagode não seja nenhuma novidade, o incrível crescimento que teve tanto o número de pagodeiros quanto o de pagodes, ao longo dos anos 80, é expressivo.

Em declaração dada à imprensa, em agosto de 84, Arlindinho — o Arlindo Cruz, nome chave do mundo dos pagodes — dizia o seguinte: “(...) as escolas de samba deixaram de lado o samba de quadra, o partido alto e o samba de roda, que atualmente só é tocado nos pagodes. Com sucesso, porque é o que agrada o público”. Temos aí uma indicação da retomada, pelo pagode, da ênfase em certas formas “tradicionais” do samba. Há ainda quem afirme, por exemplo, que o pagode abre espaço para formas de cantar o samba que o mundo do disco, do rádio ou da TV não foi capaz de absorver. Trata-se aqui de uma referência a um certo modo “embolado” de cantar as músicas, de pronunciar os versos por oposição ao samba “bem pronunciado” veiculado pelos meios de comunicação de massa. Mas essa volta ao fundo de quintal — afinal de contas, o berço do samba — não apenas revigora sua dimensão “tradicional”. (Aliás, diga-se de passagem, uma categoria delicada e problemática que tanto o Cacique quanto o pagode vão permitir revisitar). Ela também reafirma seu sentido “modernizante” (categoria não menos problemática), de troca com o mercado e com a sociedade mais ampla. Não se pode esquecer, por exemplo, que o pagode é também um grande espaço de mercado e de profissionalização: é um importante canal de divulgação de compositores, intérpretes e instrumentistas, um local fundamental de encontro entre sambistas anônimos e os grandes nomes do mercado fonográfico.

“O samba marca como giz / é eterno por que é raiz”, afirma a letra de um dos sambas cantados pelo grupo Fundo de Quintal. Esses versos sempre me chamaram a atenção. Não apenas pela beleza da canção de que são parte, mas pelo aparente inusitado da ligação que estabelecem. Essa curiosa aproximação entre a “solidez” e a “imobilidade” da raiz e a “momentaneidade” ou a “não-fixidez” do giz, afora o dado sonoro, da rima, parece oferecer uma pista interessante. Poderíamos, seguindo esta pista, imaginar uma tradição/raiz que, a cada momento, refizesse sua solidez na momentaneidade e na não-fixidez do giz. A “tradição” vista agora como uma espécie de signo vazio que necessitasse ser constantemente reconstruído, num jogo de manipulações e buscas de legitimidade. Ao invés das essências e dos absolutos, a momentaneidade, a instabilidade e o jogo das relações de poder e da construção do sentido.

É claro, no momento, que este movimento de reconstrução ou redefinição da tradição não é, absolutamente, aleatório. Muito pelo contrário, ele ocorre dentro de contextos específicos e seguindo regras também particulares. Não é dada a qualquer membro de um grupo e muito menos em qualquer situação a possibilidade de inovar ou reinventar aspectos da tradição. Isto ocorre em função de posições ou de configurações de poder concretas e em articulação com discursos também bastante definidos. Entretanto, a variedade de situações e de invenções possíveis supera facilmente nossa capacidade de previsão.

Logo, não haveria mais lugar para uma oposição pura e simples, por exemplo, entre categorias tais como “tradição” e “modernizante” ou mesmo “tradição” e “mudança”. Segue daí que outros pares freqüentes de oposição como cultura de massa/ cultura popular, tradição/ mercado e assim por diante também perderiam boa parte de seu vigor. No lugar da fixidez das essências e das oposições necessariamente excludentes e contraditórias, as relativizações e as simultaneidades.

Tanto no caso do Cacique de Ramos quanto do movimento de pagode estas questões se exemplificam em grande número. Pensemos, por exemplo, naquela fantasia de índio apache tomada de empréstimo ao universo da história em quadrinhos ou do cinema norte-americano (elementos por excelência da cultura de massa internacional) e mesclada tanto com o ideário religioso da umbanda e do candomblé quando com um discurso em defesa do índio brasileiro. Ou na incorporação, pelo grupo de pagode que atua na quadra do Cacique às quartas-feiras, do banjo como instrumento para fazer samba. Ou ainda, num sentido mais geral, neste samba de pagode que, no seu movimento de “volta à tradição” (ao fundo de quintal ou às formas de samba não prestigiadas, em geral, pela indústria cultural), se afirma como uma excelente mercadoria, além do mais em perfeita sintonia com o gosto popular. Enfim, os exemplos poderiam ser longamente enumerados.

O que vale reter aqui é que em todas estas situações seria sempre possível acionar (o que ocorre, aliás, freqüentemente) acusações, por parte principalmente de intelectuais ou estudiosos desse universo da chamada cultura popular, da “deturpação”, “descaracterização” etc. a partir de uma visão idealizada do rumo que esta mesma cultura devesse tomar. Um pouco como se a cultura popular tivesse que se manter imutável (ou mutável dentro de limites bastante rígidos), constituindo-se uma espécie de “guardiã de tradições”, enquanto todo o mundo à sua volta transforma-se constante e radicalmente, num jogo de incorporações, de apropriações, de redefinições de sentido.

Essas afirmações não me impedem de perceber, no entanto, que esta questão do rumo que deve tomar a tradição, e logo do tema da “descaracterização” ou da “deturpação”, seja um elemento de disputa presente tanto para os membros ou freqüentadores do Cacique quanto para os representantes do mundo do pagode. Este tipo de discussão não apenas está presente como é encaminhada de modo, às vezes, particularmente tenso. Mas aí fica bastante claro o quanto se trata efetivamente de um conflito que, longe de expressar a idealização da cultura do “outro”, atualiza as disputas internas ao próprio grupo no sentido da afirmação destes ou daqueles valores ou do poder deste ou daquele segmento do mesmo grupo.

Paralelamente, é necessário que se desconstrua a suposta homogeneidade que categorias excessivamente generalizantes como cultura “popular” ou mesmo cultura “do povo”, “do oprimido” e assim por diante nos levam a perceber. Sem perder de vista certas determinações gerais que pautam a vida social, tais como as relações de poder, as relações de exploração ou as hierarquias sociais e as subordinações de toda ordem, é preciso qualificar as situações e os sujeitos envolvidos através de análises concretas. E aí, mais uma vez, está diante de determinações bastante específicas. Um capital familiar, um certo universo musical, um determinado tipo de inserção profissional de seus membros e freqüentadores, a localização numa determinada região da cidade com uma história particular e assim por diante. Evidentemente, estes aspectos particularizadores se articular com aquelas determinações gerais de que falava acima. Mas, novamente, também de formas específicas que precisam ser desvendadas em cada caso concreto.

Abre-se, assim, um campo novo de visão e surge a possibilidade de uma outra forma de compreensão da dinâmica da chamada cultura popular e dos movimentos de seus sujeitos capaz de dar conta, com mais agilidade, das situações com as quais o analista se defronta. Não mais a camisa de força de categorias como “alienação”, “falsa consciência” ou “autenticidade/descaracterização” — conceitos e noções que, por sua aplicação mecânica e mesmo pelo quadro lógico no qual se inserem, acabaram por impedir mais que fazer avançar o conhecimento do objeto que buscavam aprender. Mas sim o sutil e atento acompanhamento da movimentação de sujeitos reais no mundo não menos real da produção da cultura no espaço político da sociedade.

A partir daí, vale a pena revisitar o percurso realizado tanto pelo Cacique de Ramos quanto pelo pagode e perceber, ao longo dessas trajetórias, a riqueza de situações e de sentidos que eles oferecem. Assim como o samba — simultaneamente popular/ negro/ de massa/ brasileiro (considerando-se tudo o que estas categorias têm de interpenetrável, excludente, aproximador, diferenciador...) — o Cacique e o pagode falam de uma grande pluralidade, de uma enorme polivalência que exigem do intérprete uma vontade teórica de acompanhar seu movimento com instrumentos e noções novas e contemporâneas.

Fonte: Agenda do Samba e Choro
Este artigo foi publicado inicialmente com o título "Quem Sabe Faz a Hora... E Espera Acontecer"por Pereira, Carlos Alberto Messeder in Em Busca do Brasil Contemporâneo, Rio de Janeiro, Notrya Ed., 1993.